Há tardes em que me sento para escrever sobre uma árvore e, antes de alcançar os galhos, encontro você. Não sei explicar em que momento a lembrança tomou aquele caminho. Talvez tenha vindo na luz que se demora sobre as folhas, talvez na cadeira vazia, um pouco afastada da mesa. Quando percebo, a paisagem já tem alguma coisa que reconheço e prefiro não dizer.
Procuro uma palavra para a cor do céu. Experimento duas, risco ambas. Então me lembro de como era estar ao seu lado, e a frase encontra um ritmo que eu não conseguiria inventar sozinha. É assim que certas presenças participam da escrita: sem pedir espaço, alteram a respiração de uma página.
Nem sempre escrevo o que aconteceu. Às vezes, escrevo o que teria sido bonito viver. Uma manhã sem a urgência de partir, o café esfriando enquanto a conversa continua, a liberdade de contar uma coisa pequena assim que ela acontece. Dou a essas possibilidades uma janela, uma mesa, um jardim. Dentro delas, o afeto pode fazer os gestos que a vida deixou suspensos.
Quem lê encontra uma casa no campo. Talvez repare nas flores, no chão úmido, no rumor das árvores. Eu conheço a razão de haver duas xícaras sobre a mesa. Ainda assim, gosto de deixar a cena aberta. Alguém poderá reconhecer ali a própria espera, aproximar uma cadeira, lembrar um nome que desconheço. O que nasceu tão íntimo aprende, aos poucos, a acolher outras vidas.
Por isso, há sentimentos que prefiro confiar às entrelinhas. Escrevê-los exige uma delicadeza que ainda estou aprendendo: chegar perto sem explicar demais, permitir que uma imagem guarde aquilo que uma declaração deixaria exposto. Um ramo inclinado sobre o caminho pode dizer muito, se a mão souber onde interromper a frase.
E quando termino a página, permaneço alguns instantes diante dela. Leio em voz baixa. Mudo uma palavra de lugar. Lá fora, a tarde prossegue, e alguma coisa em mim finalmente descansa.
Sobre a mesa escrita, o café ainda está quente
Gênero: Prosa poética
Temática: Amor, memória e criação literária.