O que floresce sem nome

| | Dolores Flor
Publicado em 01 de Outubro de 2026 ás 13h 44min

 

Há tardes em que me sento para escrever sobre uma árvore e, antes de alcançar os galhos, encontro você. Não sei explicar em que momento a lembrança tomou aquele caminho. Talvez tenha vindo na luz que se demora sobre as folhas, talvez na cadeira vazia, um pouco afastada da mesa. Quando percebo, a paisagem já tem alguma coisa que reconheço e prefiro não dizer.

 

Procuro uma palavra para a cor do céu. Experimento duas, risco ambas. Então me lembro de como era estar ao seu lado, e a frase encontra um ritmo que eu não conseguiria inventar sozinha. É assim que certas presenças participam da escrita: sem pedir espaço, alteram a respiração de uma página.

 

Nem sempre escrevo o que aconteceu. Às vezes, escrevo o que teria sido bonito viver. Uma manhã sem a urgência de partir, o café esfriando enquanto a conversa continua, a liberdade de contar uma coisa pequena assim que ela acontece. Dou a essas possibilidades uma janela, uma mesa, um jardim. Dentro delas, o afeto pode fazer os gestos que a vida deixou suspensos.

 

Quem lê encontra uma casa no campo. Talvez repare nas flores, no chão úmido, no rumor das árvores. Eu conheço a razão de haver duas xícaras sobre a mesa. Ainda assim, gosto de deixar a cena aberta. Alguém poderá reconhecer ali a própria espera, aproximar uma cadeira, lembrar um nome que desconheço. O que nasceu tão íntimo aprende, aos poucos, a acolher outras vidas.

 

Por isso, há sentimentos que prefiro confiar às entrelinhas. Escrevê-los exige uma delicadeza que ainda estou aprendendo: chegar perto sem explicar demais, permitir que uma imagem guarde aquilo que uma declaração deixaria exposto. Um ramo inclinado sobre o caminho pode dizer muito, se a mão souber onde interromper a frase.

 

E quando termino a página, permaneço alguns instantes diante dela. Leio em voz baixa. Mudo uma palavra de lugar. Lá fora, a tarde prossegue, e alguma coisa em mim finalmente descansa.

 

Sobre a mesa escrita, o café ainda está quente

 

Gênero: Prosa poética
Temática: Amor, memória e criação literária.

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