O ponteiro invisível

Pensamentos | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 02 de Março de 2026 ás 19h 12min

O Ponteiro Invisível 

 

O tique-taque incessante 

do relógio apocalíptico, 

ecoando nas veias do mundo, 

uma batida firme, implacável. 

 

A música toca, 

uma sinfonia estranha, 

feita de alarmes distantes, 

de notícias urgentes lidas no brilho frio 

de telas cada vez mais iluminadas. 

 

É uma valsa acelerada, 

dançada sobre areia fina 

que escorre entre os dedos, 

a melodia vibrante, quase sedutora, 

mas com um tom subjacente de urgência rouca. 

 

Os segundos se esticam, 

milissegundos que pesam toneladas, 

cada um carregando o peso 

de um futuro incerto, 

de um amanhã que pode ser apenas 

o silêncio repentino. 

 

Observo o mostrador, 

não de metal ou vidro polido, 

mas gravado nas rugas do tempo, 

no cansaço dos olhos que veem demais, 

na pressa desesperada de viver 

o agora que corre para o fim. 

 

A orquestra é barulhenta, 

cheia de notas dissonantes, 

de promessas quebradas e esperanças tenues, 

a melodia cresce em volume, 

parece querer preencher todo o espaço vazio 

entre o que fomos e o que seremos. 

 

E eu danço, 

com os pés um pouco pesados, 

tentando acompanhar o ritmo frenético, 

tentando ignorar a contagem regressiva 

que pulsa atrás dos meus olhos fechados. 

 

Quando o ponteiro, 

aquele espectro de metal ou luz, 

finalmente alcançar o ponto zero, 

quando a vibração cessar, 

quando a última nota da canção 

se dissolver no nada... 

 

Meu Deus. 

 

A pausa. 

O vácuo absoluto. 

 

Não quero imaginar 

o peso dessa quietude, 

a ausência de som, 

o que resta quando a distração sonora 

e a urgência visual 

desaparecem de repente. 

 

Será um frio cortante? 

Uma luz ofuscante revelando 

a verdadeira paisagem? 

Ou apenas o esquecimento total, 

a ausência de um palco 

onde a peça terminou sem aplausos? 

 

O silêncio depois do apocalipse, 

esse é o terror que reside 

não no barulho, mas na sua negação. 

A música é um véu, 

uma cortina grossa de som 

que esconde a natureza do que está por vir, 

ou talvez, 

o que sempre esteve lá. 

 

O relógio avança. 

A música me embala. 

E o medo real não é do fim da festa, 

mas do que farei 

quando a agulha parar de girar 

e eu tiver que encarar 

o som que virá depois 

de todo o som. 

 

Um pensamento que prefiro 

deixar flutuando, 

como fumaça, 

enquanto o tique-taque 

ainda me permite respirar.

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