O poema que Platão nunca escreveu

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 08 de Março de 2026 ás 16h 19min

Ó meu Deus, a pergunta flutua 

na brisa leve do pensamento, 

como uma folha de outono 

desprendida, buscando o chão 

do conhecimento antigo. 

 

Diga-me, por favor, 

o poema que Platão, 

o mestre das formas puras, 

o arquiteto da alma, 

nunca teceu em versos. 

 

Qual a métrica silenciada? 

Qual a rima não dita 

que repousa no éter, 

além das cavernas, 

além do sol que ele descreveu? 

 

Se ele escreveu, 

nessa voz que atravessa milênios, 

em que língua se derramou 

a melodia perdida? 

 

Seria o grego 

mais antigo que o grego que conhecemos? 

Um dialeto dos deuses, 

talvez, esquecido pelos homens 

na pressa da história. 

 

Em qual pergaminho, 

pele de animal tratada com esmero, 

guardava-se o segredo? 

Estava enrolado na Biblioteca de Alexandria, 

antes da chama, 

ou jaz em algum cofre de mármore 

sob as colinas de Atenas? 

 

Sussurro de papiro, 

cheiro de poeira de séculos, 

o feitiço da tinta desbotada. 

 

Deixa-me ouvir, gentilmente, 

a beleza daquelas lindas palavras, 

aquelas que escaparam 

do cânone, do diálogo socrático, 

da República idealizada. 

 

Eu busco o poema que não tem forma, 

a canção que a razão não capturou inteira. 

 

Talvez fosse sobre a saudade 

que a alma sente 

do seu lar verdadeiro, 

antes de vestir o corpo, 

uma nostalgia sem nome, 

um amor que só a Ideia entende. 

 

Talvez descrevesse a dança 

das estrelas que ainda não nasceram, 

ou a cor exata da justiça 

vista de perto. 

 

Ó Deus, 

se essa beleza existe, não escrita, 

deixa que ressoe 

no silêncio entre as minhas próprias linhas, 

um eco perfeito, 

um verso que vive apenas 

na esperança de quem pergunta. 

 

O poema nunca escrito, 

talvez seja o mais completo de todos, 

livre de falhas de tradução, 

perfeito na ausência. 

 

E a língua, 

ah, a língua... 

seria a linguagem da contemplação, 

o som que a mente faz 

quando finalmente encontra a verdade. 

 

Deixa-me apenas sentir a sombra dele, 

o rascunho divino, 

o poema que Platão sonhou acordado, 

mas jamais ousou fixar no material. 

Isso já me basta, por agora.

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