O outono
Outono | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 01 de Março de 2026 ás 16h 27min
O outono desce frio e silencioso
um sussurro no ar que já não é de verão
a luz se inclina mais cedo
abraçando a terra com sombras longas
As árvores, gigantes pacientes,
sentem a mudança na seiva
um chamado antigo para o descanso
e a transformação começa lenta
Primeiro um toque de ouro pálido
no topo das folhas mais altas
depois o carmesim se espalha
como tinta derramada com suavidade
O verde profundo, o verde da vida farta,
recede, cede espaço
para o amarelo vibrante, quase elétrico
o laranja quente como fogo contido
Caminho sob o dossel mutante
e sinto o chão macio, forrado
com tapetes que a natureza tece
em tons que nenhum pintor domina totalmente
Olho para cima, para a dança suave
das folhas soltas que giram no ar rarefeito
cada uma uma pequena chama que se apaga
numa despedida sem dor
É uma beleza que me aperta o peito
uma melancolia doce e inevitável
a certeza do ciclo, do fim que prepara o novo
a quietude que precede a neve
Ó meu Deus, quanta beleza
nesta entrega gradual, neste declínio nobre
o mundo se veste para a introspecção
numa paleta que só o outono conhece
O cheiro de terra úmida e folhas secas
sob os pés que esmagam levemente
cada passo é um som abafado
na sinfonia silenciosa da estação que cai
As cores gritam baixinho
amarelo mostarda, bordô profundo, cobre polido
uma última explosão de glória
antes que os galhos fiquem nus, desenhados contra o cinza
E eu paro, apenas respiro
a friagem que limpa a alma
testemunha humilde deste espetáculo anual
onde a morte se veste de festa
Quanta beleza, Senhor,
nesta transição fria e silenciosa
quando a vida se recolhe
para sonhar com a primavera que virá.