O nome no crachá

| | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Alice Campelo
Publicado em 12 de Julho de 2026 ás 12h 24min

No primeiro dia,

o crachá era grande demais para o cordão.

Ou talvez eu ainda não coubesse

no nome que carregava.

Caminhei pelos corredores

como quem acreditava

que um pedaço de plástico

pudesse inaugurar uma vida.

Achei que bastava

fazer o meu melhor.

Ninguém me contou

que existem portas invisíveis.

Algumas exigem sobrenomes.

Outras só se abrem

para quem já estava do lado de dentro.

Houve dias

em que procurei por mim

naquela superfície fria.

Encontrei uma fotografia,

um cargo,

um número,

uma empresa.

Nenhum deles conhecia

as palavras que engoli.

Nem os silêncios que sobrevivi.

O crachá abria edifícios,

mas nunca pessoas.

Hoje, antes de sair de casa,

confiro se o meu nome continua cabendo dentro de mim.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.