O navio partiu

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 19 de Março de 2026 ás 16h 44min

O navio partiu.

Silhueta fina, cortando o azul que se esvai.

Um adeus lento,

quase imperceptível da margem onde eu fico.

 

Rastro branco,

a espuma da partida,

a única evidência visível de um movimento que me afasta.

A promessa de horizonte elevada pelas ondas.

 

O ar frio da manhã ainda guarda o cheiro de sal e de você,

mas o som do motor se dilui,

transforma-se em sussurro distante,

uma nota que a brisa rouba.

 

Solidão se instala como névoa densa sobre o cais vazio.

As gaivotas, antes barulhentas,

parecem agora lamentar em coro mudo.

 

Cada metro que ganha,

o navio me tira um pedacinho da certeza do agora.

Ele navega para onde?

Para portos que só existem na imaginação,

lugares de reencontro ou de esquecimento final.

 

Saudade tece sua teia fina,

presa aos mastros imaginários,

às bandeiras que tremulam ao vento,

mensagens não enviadas.

 

Penso no convés,

no lugar onde você deve estar agora,

olhando para trás, talvez,

ou já focado no próximo cais.

 

Deve estar longe,

tão longe que a linha do mar parece engolir a própria esperança.

Longe, em um porto de adeus,

onde as âncoras são pesadas de lembranças e as despedidas são o pão de cada dia.

 

O mar continua, implacável,

lavando a areia onde meus pés ficaram.

E eu permaneço,

na margem deste silêncio vasto,

esperando que o rastro se dissipe,

ou que a distância invente um caminho de volta.

 

Mas o navio se foi.

Apenas o eco da partida e a imensidão azul para preencher o espaço deixado.

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