o navio da alma está aderiva
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 12 de Março de 2026 ás 13h 06min
O verniz brilha,
o sapato reluz,
a roupa é nova,
o corte de cabelo, impecável.
A fachada construída, tijolo por tijolo,
com a argamassa do sorriso forçado.
Mas a luz de dentro,
ah, essa luz,
ela vacila.
Um tremor subterrâneo abala os alicerces,
não visível na vitrine polida.
É o caos interno,
um vulcão prestes a explodir
sob a calma fingida da superfície.
A alma, sim, a alma
é um navio à deriva.
As velas rasgadas pelo vento forte
da angústia não nomeada.
O leme solto,
dançando sem rumo
no oceano escuro da incerteza.
Maremoto na câmara do peito,
ondas gigantes
de tristeza acumulada,
de mágoas que nunca ancoraram
em porto seguro.
O mar da vida, revolto,
e o capitão, perdido,
não sabe ler as estrelas
porque a névoa da confusão
cobre o céu interior.
Pode-se lustrar o casco até ele refletir o sol,
pode-se pintar o convés com cores vivas,
mas se a água entra,
se o porão inunda com o medo
e o desespero silencioso,
todo o esplendor externo
é apenas um sarcófago bonito.
É inútil polir a madeira
enquanto a estrutura racha.
Não adianta varrer as migalhas
do chão de um salão que está em chamas.
Primeiro, a tempestade.
É preciso descer ao porão
da própria essência.
Acalmar o maremoto com mãos firmes,
embora trêmulas.
Aprender a navegar de novo
na escuridão que se conhece.
Consertar o mastro quebrado,
costurar as velas do propósito.
Fazer silêncio
para ouvir o sussurro da bússola interna.
Só depois que o navio da alma
encontrar um mínimo de paz,
um respiro no alto-mar da existência,
é que vale a pena
limpar os cascos.
A beleza exterior,
essa é apenas o reflexo tardio
da paz que se encontrou
no fundo da própria noite.
O brilho de fora,
vem de um mar de dentro
que finalmente se acalmou.
Comentários
Maravilhoso
Maria Lurdes | 13/03/2026 ás 11:14