O navio ancorado na encosta do mundo

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 08 de Outubro de 2026 ás 10h 05min

 O Navio Ancorado na Encosta do Mundo

 

Rosy Neves

 

 

 

 

Eu vi um navio

ancorado na encosta do mundo,

onde as montanhas terminavam

e o céu começava a se desfazer.

 

Mas o mar...

Ah, o mar era de lágrimas —

lágrimas profundas,

antigas,

que não pertenciam a nenhum oceano.

 

Eram lágrimas fora do mundo,

caídas de algum céu esquecido,

onde até as estrelas

tinham aprendido a chorar.

 

O navio permanecia imóvel,

com as velas recolhidas

e o silêncio dormindo

sobre o seu convés.

 

Ninguém sabia de onde vinha.

Ninguém sabia para onde ia.

 

Talvez carregasse almas,

talvez sonhos naufragados,

talvez apenas a saudade

de um lugar que nunca existiu.

 

Aproximei-me da margem

e ouvi as ondas sussurrando:

 

— Não embarques...

 

Porque aquele mar

não levava para terras conhecidas.

 

Levava para além do tempo,

para além das estrelas,

para um lugar onde as lágrimas

não caem dos olhos...

caem do próprio universo.

 

E o navio, então,

soltou uma pequena névoa

de suas chaminés adormecidas.

 

Partiu sem partir.

 

E eu fiquei na encosta do mundo,

olhando o mar de lágrimas,

perguntando ao silêncio:

 

Quem chorou tanto

para que o oceano

se tornasse infinito?

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