O menino que conversava com flores

Primavera | Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 21 de Maio de 2026 ás 07h 51min

O Menino Que Conversava Com Flores

 

de Rosy Neves

 

Havia um menino que conversava com flores.

 

Todas as manhãs, antes mesmo do sol abrir os olhos sobre o mundo, ele corria descalço até o pequeno jardim dos fundos. O orvalho beijava seus pés miúdos, e as margaridas inclinavam a cabeça como quem o cumprimentava em silêncio.

 

Ali era o seu reino.

Não um reino de ouro ou castelos, mas de jasmins, violetas e roseiras antigas que cresciam tortas, como velhas senhoras contando histórias ao vento. O menino conhecia cada folha, cada perfume, cada formiga escondida entre as raízes úmidas da terra.

 

Mas o que ele mais amava eram as borboletas.

Ah, as borboletas...

 

Elas chegavam aos montes nas manhãs de primavera, colorindo o ar como pequenos pedaços vivos de arco-íris. O menino acreditava que elas eram cartas enviadas pelo céu. Por isso nunca tentava prendê-las. Apenas abria as mãos e deixava que pousassem sobre seus dedos com a delicadeza de um sonho.

 

Havia uma borboleta azul que sempre voltava.

Ela dançava ao redor dele como se o reconhecesse de outras vidas. O menino sorria sem entender por quê, mas dentro do peito sentia uma alegria tão bonita que parecia música.

 

Enquanto outras crianças corriam atrás do tempo, ele corria atrás da beleza.

Passava horas observando o voo silencioso das asas, escutando o rumor das folhas, inventando nomes para as nuvens. Sua mãe dizia que ele tinha o coração cheio de primavera.

 

E talvez tivesse mesmo.

Porque até nos dias tristes o jardim florescia dentro dele.

 

Certa tarde, uma tempestade feroz caiu sobre a cidade. O vento arrancou pétalas, dobrou galhos e espalhou folhas pelo quintal inteiro. O menino chorou ao ver suas flores feridas pela chuva.

 

Então, no meio do céu escuro, uma pequena borboleta amarela apareceu.

Voava devagar.

Persistente.

Como uma centelha de esperança atravessando a tempestade.

 

O menino enxugou as lágrimas e compreendeu algo que só os jardins ensinam aos corações puros: a vida também floresce depois do caos.

 

Na manhã seguinte, ele voltou ao quintal com suas mãos pequenas carregando sementes.

E enquanto plantava novas flores sobre a terra molhada, dezenas de borboletas começaram a surgir ao redor dele, dançando sob a luz dourada do amanhecer.

 

Parecia que o próprio jardim estava agradecendo por ser amado daquela maneira tão rara.

 

Porque existem crianças que crescem depressa demais.

Mas existem outras que permanecem eternamente feitas de vento, flores e poesia.

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