O menino e a gralha-azul

| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Isolti Cossetin
Publicado em 14 de Outubro de 2026 ás 09h 46min

O menino e a gralha-azul

Há muitos anos, quando ainda morava perto das matas de pinheirais, Zezinho costumava sair cedo com sua cestinha de vime para colher pinhões. Gostava do cheiro da floresta, do canto dos pássaros e do barulho das folhas sob os pés.

Foi numa dessas manhãs que encontrou um filhotinho caído no chão. Era pequeno, frágil e piava baixinho.

Sem pensar duas vezes, Zezinho o pegou com cuidado, colocou na cestinha e levou para casa.

O pai não gostou da ideia.

— Passarinho tem que ficar na natureza.

Mas Zezinho pediu ajuda à mãe, que acabou convencendo o pai a deixá-lo cuidar do filhote por um tempo.

O menino preparou uma caixa de papelão com pano macio, deu água em gotinhas, algumas sementes e até migalhas de pão. Todos os dias falava com o passarinho:

— Bom dia… como você está?

Com o passar das semanas, o filhote ficou mais forte e ganhou penas azuladas. Começou a bater as asas e a pular pela caixa. Zezinho passou a chamá-lo de Azulinho.

Então o pai observou e disse:

— Esse pássaro é um filhote de gralha-azul.

Zezinho sorriu. Ele já sabia que a gralha-azul ajudava a plantar os pinheiros, escondendo pinhões pela mata. Sentiu orgulho de cuidar de um passarinho tão importante.

Mas chegou o dia da despedida.

Numa manhã ensolarada, Zezinho levou Azulinho de volta à floresta, ao mesmo lugar onde o encontrara. Ajoelhou-se, respirou fundo e abriu devagar a cestinha.

A pequena ave olhou para ele, bateu as asas e voou até um galho. Depois, desapareceu entre os pinheiros.

Zezinho voltou para casa com o coração apertado, mas feliz.

O tempo passou.

Zezinho cresceu, mudou-se para a cidade, formou família.

Hoje, já adulto, conta essa história aos netos, sentado na varanda:

— Foi assim que aprendi que amar também é saber deixar ir.

E completa:

— Nunca mais vi aquela gralha. Mas sempre que vejo uma voando, lembro daquele dia… e do menino que fui.

As crianças sorriem.

E Zezinho também.

Porque algumas histórias não acabam.

Elas continuam voando dentro da gente.

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