O Lapidar do meu Camafeu: Entre o Azul e o Sangue
Ensaios | | Luciana KelmPublicado em 20 de Março de 2026 ás 15h 48min
Muitas vezes, a alma é submetida a um tempo que não é o do relógio externo, mas o das profundezas do subsolo. Durante anos, houve uma cobrança por acertos imediatos, como se a vida fosse uma métrica onde o erro é uma sentença de atraso. Mas a pedra bruta não tem pressa; ela aguarda a pressão certa para se transformar. Desistir de caminhos que não eram meus não foi um fracasso, foi o primeiro corte consciente da escultora. O "não" ao que era externo foi o "sim" necessário para que o meu verdadeiro eu pudesse respirar.
Foi no processo de escrita do meu livro e, especialmente, na entrega do meu Trabalho de Conclusão do curso de escritores que eu, finalmente, desabrochei para a literatura e para a filosofia. Naquele trabalho, mergulhei na obra de Dostoiévski, mesclando as nuances de Noites Brancas com as tramas da minha própria vida pessoal e afetiva. Utilizei ali uma promessa que hoje ecoa em minha própria alma: “Eu vou procurar por você em mil mundos e em dez mil vidas, até que eu te encontre”, ao que respondi: “e eu te esperarei em todas elas”. Ao espelhar minha história na solidão e nos sonhos dostoievskianos, transformei vivências íntimas em narrativa universal. Ao ver esses textos publicados e aclamados, a dúvida deu lugar à certeza: o meu saber tem eco e minha voz possui um lugar.
O Camafeu é o meu espaço no mundo, uma Roda de Leitura, Escrita e Psicanálise. Ele nasce da necessidade de unir a profundidade russa à maestria de Freud, criando um território onde o pensamento e a experiência se encontram. O Camafeu é, ao mesmo tempo, um processo de lapidação pessoal e um convite ao diálogo. Ele pulsa em uma fusão entre o azul-marinho do pensamento profundo e o vermelho-sangue da vida visceral. Sem a força do sangue, o saber não teria alma; sem a profundidade do azul, a vida seria apenas dor.
O capítulo mais denso dessa lapidação ocorreu quando a vida me testou com o sopro da existência do meu filho. Ali, naquela fronteira entre o medo e a ação, eu fui a voz que ouviu o inaudível. Tornei-me Mãe Pâncreas, monitorando a vida em cada detalhe, transformando o cuidado em uma vigília de amor. Hoje, como autora do livro "Meu Doce Matheus: Relatos de uma Mãe Pâncreas", transformo em palavras a jornada por esse mundo doce onde o sabor é amargo. Minha força como Escritora nasceu da necessidade de dar sentido ao indizível, e o Camafeu é o lugar onde essa escrita ganha voz e acolhimento.
O Camafeu brilha quando eu me permito brilhar também. E brilhar não significa ser impecável, mas ter a coragem de ser vista na minha totalidade. O Camafeu é o meu "estou aqui", o encontro da minha história com a sua. É o lugar onde a vulnerabilidade se torna dignidade e onde o saber se humaniza. Eu me acolho de hoje em diante, com a certeza de que a lapidação mais dolorosa produziu a joia mais preciosa: a minha liberdade de ser quem eu sou.
Por muito tempo fui tudo o que pude, hoje sou tudo o que quero.