Está escuro.
Não existe parede, chão ou teto.
Só uma luz sobre dois rostos.
O meu e o dele.
Eu o reconheço imediatamente.
Vinte anos.
Rosto liso.
Cabelos curtos.
Um olhar aberto demais para o tamanho do mundo que ele acredita conhecer.
Do outro lado da luz estou eu.
Quarenta e nove.
Barba cheia, tomada de fios brancos.
Cabelos compridos, ondulados, também marcados pelo tempo.
O rosto cansado.
Ele me observa.
Eu deixo.
- Eu conheço você?
- Conhece.
- De onde?
- Da sua vida inteira.
Ele ri.
- Isso não faz sentido.
- Eu sei.
- Você parece comigo.
- Pareço.
- Mas não é possível.
- Eu também achava.
Ele chega mais perto.
- Quantos anos você tem?
- Quarenta e nove.
- Você parece mais velho.
- Eu me sinto.
Ele sorri.
- Eu nunca vou ficar assim.
- Você tem vinte anos.
Ele cruza os braços.
A postura é a mesma.
- Eu já trabalho.
- Eu sei.
- Tenho meu carro.
- Eu sei.
- Comprei com meu dinheiro.
- Eu sei.
Aos vinte, aquele carro não era apenas um carro.
Era uma declaração.
Eu conseguia.
Eu me virava.
Eu não precisava de ninguém.
- Eu sou independente.
- Você gostava muito dessa palavra.
- Porque eu sou.
- É.
Ele não gosta.
- E você?
- Eu também sou.
- Não parece.
Eu rio.
- Você continua rápido para julgar.
- E você sabe alguma coisa que eu não sei?
- Que você ainda não sabe quase nada.
- Eu sei o suficiente.
Eu conheço aquele sorriso.
- E você conseguiu?
- O quê?
- Tudo.
A pergunta vem sem medo.
Como se a vida fosse uma coisa que bastasse querer.
- Não do jeito que eu pensava.
- Então onde foi parar tudo que você queria?
- Virou outra coisa.
- Que coisa?
- Segurar o que não dava para largar.
Ele não gosta da resposta.
Fica quieto por um instante procurando uma pergunta melhor.
- Você desistiu?
- Não.
- Então por que está assim?
Olho para minhas mãos.
- Porque continuar também cansa.
Ele não responde.
Aos vinte ele ainda acha que cansaço é escolha.
- Você tem filhos?
- Dois.
Ele franze a testa.
- Dois?
- Dois.
- Então eu consegui alguma coisa.
Eu sorrio.
- Conseguiu.
- Eles são pequenos?
- Um deles já é quase adulto.
Ele me olha, confuso.
- Quase adulto?
- Tem dezoito anos.
- E você já tem um filho de dezoito?
- Tenho.
Ele demora a responder.
- Então eu vou ser pai.
- Vai.
- E você só está me contando agora?
- Eu não sabia como contar.
- Mas você acabou de dizer.
- Dizer não é a mesma coisa que explicar.
Ele olha para o chão que não existe.
- Eu sou um bom pai?
A pergunta me atravessa.
- Você tenta.
- Isso não foi o que eu perguntei.
- Eu sei.
- Então?
- Às vezes.
Ele aceita a resposta com dificuldade.
- E o outro filho?
- Uma filha.
Ele me olha.
- Uma filha?
- Uma menina.
E, pela primeira vez, o sorriso dele não parece arrogante.
- Ela ainda é criança?
- Ainda.
O sorriso dele desaparece quando percebe o meu rosto.
- Você tem medo.
- Tenho.
- De quê?
- De não estar aqui tempo suficiente para protegê-la.
- Eu nunca teria esse medo.
- Eu sei.
- Eu enfrentaria qualquer coisa.
- Eu também dizia isso.
- Então o que aconteceu com você?
- Eu descobri que existem coisas que força nenhuma resolve.
- Isso é conversa de velho.
- É.
Ele fica em silêncio.
Depois pergunta:
- Minha mãe ainda está viva?
Eu fecho os olhos.
Quatorze anos.
- Está.
Ele me observa.
- Então por que você fechou os olhos?
- Porque eu queria só ouvir você perguntar de novo.
- A gente ainda briga?
- Sim.
- Muito?
- O suficiente.
- Ela sabe que eu amo ela.
- Você acha que sabe.
- E não sabe?
- Sabe.
Pausa.
- Mas saber e ouvir são coisas diferentes.
Ele fica quieto.
- O que aconteceu com ela?
Agora não existe mais como evitar.
- Ela morreu.
Ele não se mexe.
- Quando?
- Você tinha trinta e cinco.
Ele olha para mim como se tentasse enxergar esse dia no meu rosto.
- E vocês estavam bem?
- Estávamos.
- Mas você disse que a gente briga.
- Brigava.
- Então como...
- A gente aprendeu a se amar.
Ele abaixa os olhos.
- Eu não sabia que ainda dava tempo.
- Dava.
- E depois?
Olho para ele.
- Depois acabou o tempo.
Ele espera.
- Não o amor.
Ele demora para levantar os olhos.
- Você sente falta dela?
- Muito.
- Do quê?
Penso.
- Do que a gente conseguiu ser antes de acabar.
- Eu podia ter amado melhor.
- Podia.
- E você não me avisou.
A frase me acerta.
- Eu não podia.
- Por quê?
- Porque você precisava viver para entender.
- Isso é injusto.
- É.
- E meu pai?
A pergunta muda o ar.
- Nunca conheceu?
- Não.
- Nunca soube quem ele era?
- Quase nada.
- E nunca procurou?
Silêncio.
- Não.
- Por quê?
- Eu achava que tinha tempo.
Ele abaixa a cabeça.
- E tinha?
- Eu achava que sim.
- E agora?
- Agora tenho perguntas que ficaram sem alguém para responder.
- Mas eu ainda posso perguntar.
- Pode.
- Posso procurar.
- Pode.
- Posso ter irmãos.
- Talvez.
- Você voltou aqui para me dizer isso?
- Não sei.
- Então para quê?
Talvez eu tenha vindo porque queria voltar a um lugar onde algumas portas ainda estavam abertas.
Talvez porque queria ver se aquele rapaz ainda teria coragem de fazer as perguntas que eu não fiz.
- Eu tenho medo de te mudar.
- Você?
- Sim.
- Você quer que eu mude.
- Quero.
- Então qual é o problema?
- Se eu te disser tudo que sei, você escolhe diferente.
- Ótimo.
- E se escolher diferente, o homem que sobrou aqui deixa de existir.
Ele fica sério.
- Esse homem está feliz?
Eu não respondo.
- Você não está feliz?
A pergunta que eu não queria ouvir.
- Algumas vezes não estou.
- Muitas?
- Mais do que eu queria admitir.
- Então muda.
- Você continua achando tudo simples.
- Porque talvez seja.
Ele suspira.
- Você realmente ficou velho.
Eu rio.
Dessa vez não respondo.
Por alguns segundos somos só dois homens diante um do outro.
Um cheio de futuro.
Outro cheio de passado.
- Se você pudesse voltar e mudar tudo, mudaria?
- Não tudo.
- Então o quê?
- Algumas perguntas.
- Quais?
- As que eu deixei para depois.
A luz começa a diminuir.
- Eu ainda tenho tempo?
- Tem.
- E você?
Não respondo.
No escuro que sobra, ainda dá para ouvir um som.
Não é minha voz.
Também não é a dele.
É o som de uma pergunta que nenhum dos dois teve coragem de fazer primeiro, esperando ali, entre nós, até a luz apagar de vez.