O homem que ficou

| | Thon Borges
Publicado em 30 de Agosto de 2026 ás 09h 57min

Está escuro.

Não existe parede, chão ou teto.

Só uma luz sobre dois rostos.

O meu e o dele.

Eu o reconheço imediatamente.

Vinte anos.

Rosto liso.

Cabelos curtos.

Um olhar aberto demais para o tamanho do mundo que ele acredita conhecer.

Do outro lado da luz estou eu.

Quarenta e nove.

Barba cheia, tomada de fios brancos.

Cabelos compridos, ondulados, também marcados pelo tempo.

O rosto cansado.

Ele me observa.

Eu deixo.

- Eu conheço você?

- Conhece.

- De onde?

- Da sua vida inteira.

Ele ri.

- Isso não faz sentido.

- Eu sei.

- Você parece comigo.

- Pareço.

- Mas não é possível.

- Eu também achava.

Ele chega mais perto.

- Quantos anos você tem?

- Quarenta e nove.

- Você parece mais velho.

- Eu me sinto.

Ele sorri.

- Eu nunca vou ficar assim.

- Você tem vinte anos.

Ele cruza os braços.

A postura é a mesma.

- Eu já trabalho.

- Eu sei.

- Tenho meu carro.

- Eu sei.

- Comprei com meu dinheiro.

- Eu sei.

Aos vinte, aquele carro não era apenas um carro.

Era uma declaração.

Eu conseguia.

Eu me virava.

Eu não precisava de ninguém.

- Eu sou independente.

- Você gostava muito dessa palavra.

- Porque eu sou.

- É.

Ele não gosta.

- E você?

- Eu também sou.

- Não parece.

Eu rio.

- Você continua rápido para julgar.

- E você sabe alguma coisa que eu não sei?

- Que você ainda não sabe quase nada.

- Eu sei o suficiente.

Eu conheço aquele sorriso.

- E você conseguiu?

- O quê?

- Tudo.

A pergunta vem sem medo.

Como se a vida fosse uma coisa que bastasse querer.

- Não do jeito que eu pensava.

- Então onde foi parar tudo que você queria?

- Virou outra coisa.

- Que coisa?

- Segurar o que não dava para largar.

Ele não gosta da resposta.

Fica quieto por um instante procurando uma pergunta melhor.

- Você desistiu?

- Não.

- Então por que está assim?

Olho para minhas mãos.

- Porque continuar também cansa.

Ele não responde.

Aos vinte ele ainda acha que cansaço é escolha.

- Você tem filhos?

- Dois.

Ele franze a testa.

- Dois?

- Dois.

- Então eu consegui alguma coisa.

Eu sorrio.

- Conseguiu.

- Eles são pequenos?

- Um deles já é quase adulto.

Ele me olha, confuso.

- Quase adulto?

- Tem dezoito anos.

- E você já tem um filho de dezoito?

- Tenho.

Ele demora a responder.

- Então eu vou ser pai.

- Vai.

- E você só está me contando agora?

- Eu não sabia como contar.

- Mas você acabou de dizer.

- Dizer não é a mesma coisa que explicar.

Ele olha para o chão que não existe.

- Eu sou um bom pai?

A pergunta me atravessa.

- Você tenta.

- Isso não foi o que eu perguntei.

- Eu sei.

- Então?

- Às vezes.

Ele aceita a resposta com dificuldade.

- E o outro filho?

- Uma filha.

Ele me olha.

- Uma filha?

- Uma menina.

E, pela primeira vez, o sorriso dele não parece arrogante.

- Ela ainda é criança?

- Ainda.

O sorriso dele desaparece quando percebe o meu rosto.

- Você tem medo.

- Tenho.

- De quê?

- De não estar aqui tempo suficiente para protegê-la.

- Eu nunca teria esse medo.

- Eu sei.

- Eu enfrentaria qualquer coisa.

- Eu também dizia isso.

- Então o que aconteceu com você?

- Eu descobri que existem coisas que força nenhuma resolve.

- Isso é conversa de velho.

- É.

Ele fica em silêncio.

Depois pergunta:

- Minha mãe ainda está viva?

Eu fecho os olhos.

Quatorze anos.

- Está.

Ele me observa.

- Então por que você fechou os olhos?

- Porque eu queria só ouvir você perguntar de novo.

- A gente ainda briga?

- Sim.

- Muito?

- O suficiente.

- Ela sabe que eu amo ela.

- Você acha que sabe.

- E não sabe?

- Sabe.

Pausa.

- Mas saber e ouvir são coisas diferentes.

Ele fica quieto.

- O que aconteceu com ela?

Agora não existe mais como evitar.

- Ela morreu.

Ele não se mexe.

- Quando?

- Você tinha trinta e cinco.

Ele olha para mim como se tentasse enxergar esse dia no meu rosto.

- E vocês estavam bem?

- Estávamos.

- Mas você disse que a gente briga.

- Brigava.

- Então como...

- A gente aprendeu a se amar.

Ele abaixa os olhos.

- Eu não sabia que ainda dava tempo.

- Dava.

- E depois?

Olho para ele.

- Depois acabou o tempo.

Ele espera.

- Não o amor.

Ele demora para levantar os olhos.

- Você sente falta dela?

- Muito.

- Do quê?

Penso.

- Do que a gente conseguiu ser antes de acabar.

- Eu podia ter amado melhor.

- Podia.

- E você não me avisou.

A frase me acerta.

- Eu não podia.

- Por quê?

- Porque você precisava viver para entender.

- Isso é injusto.

- É.

- E meu pai?

A pergunta muda o ar.

- Nunca conheceu?

- Não.

- Nunca soube quem ele era?

- Quase nada.

- E nunca procurou?

Silêncio.

- Não.

- Por quê?

- Eu achava que tinha tempo.

Ele abaixa a cabeça.

- E tinha?

- Eu achava que sim.

- E agora?

- Agora tenho perguntas que ficaram sem alguém para responder.

- Mas eu ainda posso perguntar.

- Pode.

- Posso procurar.

- Pode.

- Posso ter irmãos.

- Talvez.

- Você voltou aqui para me dizer isso?

- Não sei.

- Então para quê?

Talvez eu tenha vindo porque queria voltar a um lugar onde algumas portas ainda estavam abertas.

Talvez porque queria ver se aquele rapaz ainda teria coragem de fazer as perguntas que eu não fiz.

- Eu tenho medo de te mudar.

- Você?

- Sim.

- Você quer que eu mude.

- Quero.

- Então qual é o problema?

- Se eu te disser tudo que sei, você escolhe diferente.

- Ótimo.

- E se escolher diferente, o homem que sobrou aqui deixa de existir.

Ele fica sério.

- Esse homem está feliz?

Eu não respondo.

- Você não está feliz?

A pergunta que eu não queria ouvir.

- Algumas vezes não estou.

- Muitas?

- Mais do que eu queria admitir.

- Então muda.

- Você continua achando tudo simples.

- Porque talvez seja.

Ele suspira.

- Você realmente ficou velho.

Eu rio.

Dessa vez não respondo.

Por alguns segundos somos só dois homens diante um do outro.

Um cheio de futuro.

Outro cheio de passado.

- Se você pudesse voltar e mudar tudo, mudaria?

- Não tudo.

- Então o quê?

- Algumas perguntas.

- Quais?

- As que eu deixei para depois.

A luz começa a diminuir.

- Eu ainda tenho tempo?

- Tem.

- E você?

Não respondo.

No escuro que sobra, ainda dá para ouvir um som.

Não é minha voz.

Também não é a dele.

É o som de uma pergunta que nenhum dos dois teve coragem de fazer primeiro, esperando ali, entre nós, até a luz apagar de vez.

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