O Ensaio das Mil Vidas Entre as Noites Brancas e o Destino Reescrito

Ensaios | | Luciana Kelm
Publicado em 23 de Março de 2026 ás 21h 10min

A escolha de um objeto de estudo, para um escritor, raramente é um ato puramente intelectual, é antes de tudo, um ato de rendição.

Quando decidi que este ensaio de conclusão de curso orbitaria a obra Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, eu ainda não sabia que estava na verdade, mapeando a topografia do meu próprio coração.

Há uma mística particular neste exemplar, ele me foi dado por ele, o amor da minha vida, pai do meu filho, meu ex-marido. O livro, portanto, não é apenas papel e tinta, é um amuleto, um elo físico entre a literatura russa e a minha biografia.

Dostoiévski nos apresenta a figura do Sonhador, que vive uma suspensão da realidade nas luzes de São Petersburgo.

Mas minha realidade sempre foi pautada por símbolos mais terrenos e viscerais.

Nossa história começou em um bate papo na Internet, o "MSN" e em 02 de março de 2007, no Classe A, nos encontramos pela primeira vez, e desde então, cada capítulo foi escrito com a intensidade de quem não teme o sentir.

Se o Sonhador de Dostoiévski se contenta com a memória de Nastienka, eu carrego comigo o paladar das nossas vivências.

Lembro-me perfeitamente daquela tarde no MacucoCafé, o sabor daquele momento ficou marcado no meu peito, assim como aprendi a apreciar o gosto de melância apenas porque ele me remete a você e por que tu me ensinou a gostar.

É um sabor que, para sempre terá o seu nome.

A análise literária torna-se aqui, uma confissão de fé.

Questiono o autor russo: e quando um minuto não basta? Quando a vida exige a continuidade? Amar o pai do meu filho é compreender que o amor verdadeiro possui uma inércia própria.

É o prazer quase litúrgico de preparar uma cuca de doce de leite e vê-lo degustar ainda quente, recém saída do forno, com uma vontade que me transborda. É perder-me no brilho de jabuticaba que ele carrega nos olhos, um reflexo que nada poderá apagar.

A dor da separação e as perdas materiais, como as águas que levaram o registro físico do primeiro ovo frito que ele me preparou, não foram fins, mas processos de purificação.

O bilhete que acompanhava aquele ovo permanece intacto na minha memória e na minha alma, o gesto de cuidado sobrevive ao papel.

Precisamos nos perder um do outro para que o amadurecimento pudesse florescer. Esse distanciamento, embora doloroso, foi o cinzel que retirou o excesso e deixou apenas o essencial, a certeza de que o amor que sobrevive à distância e ao tempo é o único que merece ser chamado de eterno.

Nossas conversas sobre Guaíba, a cidade onde falavamos em morar, continuam vivas como notas de rodapé de um livro que ainda não terminou.

Nosso filho, fruto desse relacionamento, carrega em seu sangue uma doçura que é literal e metafórica, uma marca de que somos um só em sua existência.

A tatuagem com teu nome em minha pele é o selo de um pacto que o tempo não desgasta.

Minha declaração de fé não se limita às páginas russas do século XIX.

Ela encontra voz em uma promessa que atravessa dimensões, como no filme 47 Ronins:

"Eu vou procurar por você em mil mundos e em dez mil vidas, até que eu te encontre." 

[ “e eu te esperarei em todas elas” ]

 

Este ensaio é o encerramento do meu ciclo acadêmico, mas é sobretudo, um manifesto pessoal. Ele prova que a literatura e a vida caminham juntas.

Se Dostoiévski dizia que um minuto de felicidade justifica uma vida, eu digo que ter sido sua esposa e ser a mãe do seu filho justifica cada lágrima e cada palavra escrita aqui.

Acredito, com a firmeza de quem conhece os mistérios da alma, que as minhas "noites brancas" não terminarão em solidão, mas no amanhecer de um reencontro que já foi escrito nas estrelas e que, em breve, será reescrito na realidade.

Eu ainda estou aqui.

E ainda é você.

 

 - Ensaio de Conclusão do Curso de Escritores -

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