O dia em que meu tênis subiu na árvore

| | Manoel R. Leite
Publicado em 22 de Outubro de 2026 ás 16h 49min

Naquele sábado, acordei mais cedo que o despertador. Seria o dia da corrida da escola, e eu havia treinado durante três semanas. Estava tão animado que coloquei o uniforme antes mesmo de tomar café.

Mas, quando fui calçar os tênis, descobri um problema: o direito estava ao lado da cama, e o esquerdo havia desaparecido.

Procurei debaixo dos móveis, dentro do armário e até no cesto de roupas sujas. Nada! Desconfiei imediatamente de Pedro, meu irmão de cinco anos, que costumava esconder minhas coisas nos lugares mais esquisitos.

— Pedro, você pegou meu tênis?

— Qual deles? — perguntou, com um sorriso suspeito.

— O que sumiu!

— Então não sei. Se sumiu, não dá para ver.

Não tive paciência para discutir. Faltavam quarenta minutos para a corrida. Corri ao quintal, onde Bolota, nosso cachorro, dormia tranquilamente perto da mangueira.

Foi quando ouvi um barulho entre as folhas.

Olhei para cima e quase não acreditei.

Meu tênis estava pendurado num galho!

— MÃÃÃE! MEU TÊNIS SUBIU NA ÁRVORE!

Minha mãe apareceu na varanda, seguida de meu pai e de Pedro.

— Tênis não sobe em árvore, Miguel — disse meu pai.

— Então explica aquele lá!

Todos levantaram a cabeça. Até Bolota olhou, embora eu duvide que tenha entendido alguma coisa.

Meu pai buscou uma escada. Tentou alcançar o galho, mas faltavam alguns centímetros. Depois usamos uma vassoura comprida. O tênis balançou, porém continuou preso.

Pedro sugeriu jogar uma bola.

Na primeira tentativa, erramos. Na segunda, a bola também ficou presa na mangueira.

Agora tínhamos dois problemas.

Sentei no degrau da varanda, desanimado. A corrida começaria em poucos minutos. Meus olhos arderam, mas não queria chorar.

Foi quando Pedro se aproximou.

— Miguel, preciso contar uma coisa.

— Foi você, não foi?

Ele abaixou a cabeça.

— Eu queria fazer uma surpresa...

Antes que pudesse explicar, nosso vizinho apareceu com uma vara de colher frutas. Meu pai conseguiu desprender o tênis, que caiu direto num canteiro.

Corri para pegá-lo. Estava cheio de terra, mas parecia inteiro. Quando o virei para sacudir a sujeira, uma pequena coisa caiu de dentro.

Era uma medalha feita com uma tampinha de garrafa e um barbante azul. Na frente, havia um círculo amarelo torto, desenhado com canetinha. Num papel dobrado, encontrei uma mensagem escrita com letras grandes:

“PRO MELHOR CORREDO DO MUNDO.”

Embaixo estava o nome de Pedro.

Olhei para meu irmão, que permanecia junto à varanda.

— Você fez isso para mim?

Ele confirmou.

— Queria esconder a medalha dentro do seu tênis. Mas Bolota pegou ele e levou para o quintal. Aí meu avião de papel ficou preso na mangueira e eu joguei o tênis para tentar derrubar.

— Você jogou meu tênis na árvore para salvar um avião de papel?

— Joguei. Mas não deu certo.

Olhei para a medalha. O círculo amarelo estava torto, e o barbante azul tinha dois nós enormes. Mesmo assim, achei bonita.

Meu pai apareceu com uma notícia: a corrida havia sido adiada por meia hora.

Conseguimos chegar a tempo.

Corri o mais rápido que pude, mas terminei em quarto lugar. Fiquei triste ao ver os três primeiros receberem medalhas brilhantes.

Então Pedro atravessou a quadra, pediu que eu abaixasse a cabeça e colocou sua medalha de tampinha em meu pescoço.

— Pronto! Agora você também ganhou!

Voltamos para casa pouco antes do almoço. Meu irmão saiu correndo para brincar com Bolota, enquanto eu guardava a medalha na gaveta de meus tesouros.

Na manhã seguinte, encontrei meu tênis esquerdo debaixo da cama, exatamente onde o deixara.

O direito tinha desaparecido.

Olhei pela janela.

Na mangueira, um objeto balançava entre as folhas.

Dessa vez, nem precisei chamar minha mãe.

— PEDROOO!

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