O descuido na Anatólia

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 12 de Junho de 2026 ás 19h 34min

O Descuido na Anatólia

de Rosy Neves

 

Nas areias douradas da Anatólia, onde os ventos antigos recitam segredos a Alá, cometi um descuido tão pequeno quanto uma pétala, e tão grande quanto o céu sem fim:

parti o coração do Rei.

 

Do Rei que me prometera amor eterno, bordado em fios de lua e açafrão, do Rei que jurou meu nome às estrelas escondidas sobre os minaretes.

 

Agora fujo.

Fujo pelos desertos do sonho, pelas caravanas da memória, pelos jardins onde as rosas vermelhas ainda guardam o perfume dos seus juramentos.

 

Mas como escapar dele?

Os seus olhos são dois falcões de fogo, voando acima das minhas noites. São duas fênix acesas, abrindo as asas sobre o horizonte do meu destino.

Aonde quer que eu vá, eles me encontram.

Se me escondo entre as dunas, eles brilham nas areias. Se me abrigo sob as estrelas, eles ardem entre as constelações. Se fecho os olhos para esquecê?lo, ele floresce dentro dos meus próprios sonhos.

 

Ai, meu Deus!

Como livrar?me do amor dele?

Que vento poderá apagar essas duas chamas vivas? Que mar poderá afogar um sentimento feito de eternidade?

 

Peço socorro aos anjos, mas os anjos silenciam. Peço abrigo à noite, mas a noite pronuncia o seu nome.

 

E enquanto corro, meu coração traidor permanece atrás, sentado aos pés do trono dele, como um pássaro manso que se recusou a voar.

 

Talvez esta seja a minha sina:

fugir com os pés, enquanto a alma permanece.

Pois quem já contemplou os olhos de um Rei enamorado, não escapa ileso.

Carrega para sempre, entre lágrimas e ternura, duas fênix ardendo no peito, e um amor que nem o tempo, nem a distância, nem a própria morte conseguem extinguir.

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