O céu noturno

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 25 de Março de 2026 ás 21h 35min

O Céu Noturno
 

Um tecido escurecido,

já não vibra como antes —

perdeu o pulso antigo da promessa,

como um coração que desaprende o encanto.

 

As estrelas,

antigos focos de incêndio divino,

hoje tremulam frágeis,

como lâmpadas cansadas

suspensas no sopro do tempo.

 

O brilho de milhões de anos se dissolve,

lento, quase tímido,

feito uma canção de ninar

que o vento esqueceu de terminar.

 

Erguemos os olhos —

e a tapeçaria do infinito,

outrora plena,

agora se desfaz em fendas,

em silêncios

onde a luz já não ousa morar.

 

Não há ruína súbita,

não há grito final —

apenas um esmaecer paciente,

como quem se despede

sem querer acordar ninguém.

 

As constelações ainda caminham,

mas já não queimam com a mesma febre;

há um recolhimento nelas,

um cansaço que se inclina para dentro.

 

E nós,

testemunhas de olhos úmidos e quietos,

assistimos ao universo

respirar mais devagar,

como um gigante exausto

de tanto criar e destruir.

 

Então ele se curva,

recolhe seus véus de fogo,

e permite que a escuridão avance —

não como ameaça,

mas como um abraço antigo,

calmo,

profundamente melancólico.

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