O cansaço de quem ainda sente
| Poesia intimista | Isolti CossetinPublicado em 13 de Agosto de 2026 ás 08h 43min
O cansaço de quem ainda sente
Confesso que jamais pensei em dizer isso:
estou cansada.
Sim, confesso, estou cansada.
Não sei explicar exatamente que cansaço é. Só sei que estou cansada.
Não é apenas o corpo que pede repouso. Se fosse, uma boa noite de sono talvez resolvesse. O que pesa é outro lugar. É a alma que parece caminhar com passos lentos. É a mente que já não consegue organizar tantas informações. É o coração que se tornou pequeno diante de tantas dores.
Cansei de acordar e encontrar a realidade coberta por tragédias. Quando não é uma guerra, é uma enchente. Quando não é uma criança vítima da violência, é alguém que parte cedo demais. Todos os dias o mundo parece nos pedir uma nova dose de indignação, de tristeza ou de luto.
E nós seguimos.
Seguimos porque a vida não nos oferece a opção de parar.
Cansei da avalanche de notícias que chega antes mesmo do café. As mídias despejam, sem pedir licença, imagens, opiniões, conflitos, escândalos e urgências. Parece que vivemos tentando absorver um mundo inteiro, quando mal conseguimos compreender o nosso próprio coração.
Há dias em que sinto vontade de desligar tudo.
Não por indiferença.
Mas por sobrevivência.
Também estou cansada da superficialidade que tomou conta de tantos encontros. Conversamos muito e escutamos pouco. Publicamos felicidade enquanto escondemos o esgotamento. Medimos vidas por fotografias bem iluminadas, quando tantas almas atravessam noites silenciosas.
Vivemos conectados, mas, tantas vezes, profundamente sós.
Cansei da pressa.
Da obrigação de produzir sempre.
Da cobrança para estar bem o tempo todo.
Cansei da ideia de que descansar é perder tempo, quando, talvez, descansar seja justamente a maneira de reencontrar a própria vida.
Percebo que o meu cansaço não nasceu de um único dia difícil. Ele foi sendo tecido lentamente pelas pequenas exaustões que fui ignorando. Cada preocupação guardada. Cada lágrima adiada. Cada "estou bem" dito apenas para não preocupar ninguém.
Talvez o maior cansaço seja este: o de tentar permanecer inteira em um mundo que parece fragmentar tudo.
E, apesar disso, ainda acredito.
Acredito na gentileza que resiste.
Na conversa sem pressa.
No abraço que não precisa de palavras.
Na poesia que devolve fôlego.
Na esperança que insiste em florescer entre os escombros.
Talvez eu esteja cansada porque ainda sinto. Porque ainda me comovo. Porque ainda acredito que a dor do outro também me pertence um pouco.
E penso que esse seja um cansaço diferente. Não é o cansaço de quem desistiu. É o cansaço de quem continua escolhendo amar em um tempo que tantas vezes parece ter desaprendido esse verbo.
Por isso, hoje, não quero lutar contra o meu cansaço.
Quero escutá-lo.
Talvez ele não seja um inimigo.
Talvez seja apenas a alma, com infinita delicadeza, sussurrando que chegou a hora de diminuir o passo, respirar mais fundo e lembrar que ninguém foi criado para carregar o peso do mundo inteiro.
( Isolti M.Cossetin)
P.S.: NEM SEMPRE O QUE ESCREVO É SOBRE MIM!
É PARA TODOS!!!