O camponês e o crisântemo

Saudades | | Meriellen Baldez
Publicado em 02 de Setembro de 2026 ás 20h 40min

Em seu humilde casebre 
Em uma planície no meio do nada
Vivia um camponês alegre
Com sua vida bem ajustada

Era só ele e seus animais
A horta, o vento e nada mais
Vivia sem luxos e regalias
Apenas o canto dos pássaros como sinfonia

Era especialista em cultivar vegetais
Era a sua forma de sobreviver
Comia um tanto e também dava aos animais
E o resto, juntava para para vender

Era um homem bem equilibrado
Sabia cuidar do que Deus havia dado
Economizava em tudo que podia
Para gastar na horta, sua maior alegria

Um dia, sem mais nem menos
Em seu quintal, próximo a um cântaro,
Uma cadeira e um cata-vento 
Nasceu na terra um crisântemo

No início ele sequer percebeu
Nem entendeu o que aconteceu
Pensou ser apenas um mato qualquer
Que assim como vem, vai quando quer

E assim o camponês deixou crescer
Aquele mato que um dia seria flor
Pois aquilo não faria morrer
Seus vegetais, seu grande amor

O verão chuvoso findou
E um outono fresco começou
Nos meados daquele clima acolhedor
Surge naquela erva um ponto de cor

O camponês notou algo nela
E finalmente mudou sua visão
Ela já não era mais uma “erva”
Era um mato bonitinho que deu no chão

Passou-se uma semana
Pelo tamanho pensou ser uma Lantana
Mas aos poucos o Crisântemo foi se abrindo
A cada pétala nova o Camponês ia a descobrindo

Ele finalmente floresceu
Finalmente apresentou-se ao camponês
Que nada sabia sobre aquele crisântemo
Muito menos que veio de solo chinês

Aquela flor não servia pra nada
O camponês pensou assim
Por isso não vou gastar com ela minha água
Meu amor é horta, não jardim

Mas com o que me preocupar?
Se o céu a regou antes, assim vai continuar
Ele manteve ao lado da flor o cântaro
Seria a reserva de água para o crisântemo

Quando chover ela vai se molhar
E também vai encher o cântaro
E quando a chuva cessar
Ainda terá água para o crisântemo

O camponês não queria gastar 
Recursos hídricos com o que só pode olhar
Os vegetais e animais ele poderia comer
E o que sobrasse era só vender

O plano parecia ser o ideal
No começo até pareceu funcionar
Mas todo começo tem um final
E é aí que tudo foi-se a desmoronar

Pobre crisântemo…

A chuva cessou de segunda a sexta
E o cântaro salvou-a da leve seca
Só que a água cessou-se do céu de repente
Oh, bela flor, seja forte e resistente.

O camponês passava todo dia com água para regar a horta
Sempre parava para apreciar a púrpura viva daquela flor
Dias e dias de força até que a flor amanheceu morta
E o camponês lamentou, mas ainda tinha seu amor

Passou-se uma semana sem cor
Contentava-se com seu amor
A púrpura não estava mais em seu olhar
Mas havia seu amor para se deliciar

Mas a púrpura daquela flor
Parecia ser amaldiçoada
Tirou dos olhos do camponês toda cor
Fez parecer as outras cores desbotadas

Por que sinto que minha alegria não é mais verde?
E agora tornou-se púrpura?
Porque a paixão que sinto pela minha horta
Já não parece mais tão pura?

A cada dia que passava
A cada vento que assobiava
Os balanços do mundo eram sem cor
Nada para o camponês importa mais que aquela flor

E sentado naquela cadeira em seu quintal
Aquela, que ficava perto do cântaro
Olhava o camponês, não mais alegre, para o temporal
Pensando: Porque não usei minha água para regar aquele crisântemo?

Nasceu perto da casa.
Nasceu onde podia ser visto.
Nasceu perto do cântaro.
O Crisântemo poderia ter vivido

Nasceu privilegiado
E mesmo assim morreu
Foi admirado
E mesmo assim o camponês não o escolheu


Para si só a água que transbordar
A chuva que caía sobre o cântaro
Vivendo da sobra, até ela faltar
Sucumbiu-se o crisântemo

Pobre crisântemo…
 

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