O arcanjo arqueiro
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 27 de Maio de 2026 ás 10h 52min
O Arcanjo Arqueiro
Silêncio…
Nas areias brancas e infinitas das estrelas,
o vento, como um sacerdote invisível,
ajoelha constelações antigas e cansadas,
dobrando a sua luz diante do destino.
Há uma tristeza que vem de séculos e séculos,
pesada e imensa,
pairando solenemente sobre os ombros curvados do mundo.
Silêncio…
Não despertai, ainda, os pássaros do infinito.
Pois eles carregam, com extremo cuidado em seus bicos,
as últimas, raras e preciosas sementes
da esperança que ainda resta à criação.
Olhai: a noite está ferida e aberta.
Os imensos oceanos do céu escuro
derramam o seu pranto,
chorando luas que se partiram em pedaços,
e a sua luz quebrada cai como cinza
sobre cidades inteiras que dormem,
adormecidas na frieza e na escuridão.
Mas escutai… prestai atenção!
Muito além das nebulosas, na fronteira do universo,
onde os mortos descansam e conversam em segredo com os cometas,
algo desperta, algo se move.
O Arcanjo Arqueiro ergueu-se do seu repouso.
O seu arco não é feito de madeira nem de ferro:
é tecido de relâmpagos vivos
e forjado na memória eterna.
Suas flechas não ferem a carne,
mas atravessam, certeiras e poderosas,
o coração sombrio e cego da guerra,
despedaçando o mal onde ele habita.
Ele virá.
Com os seus olhos acesos e brilhantes,
mergulhados em névoa de ouro vivo,
ele descerá.
Pisará devagar, com passos firmes e solenes,
as areias eternas das estrelas,
tal como quem retorna, enfim,
à sua pátria antiga,
um lugar esquecido e perdido pelo tempo.
Silêncio…
Abaixai a voz e a alma.
Há crianças que ainda sonham,
mesmo embaixo do peso das ruínas.
Há mães que, na sua dor infinita,
bordam lágrimas invisíveis
nos tecidos brancos dos lençóis da madrugada.
Silêncio…
O universo inteiro, de um lado ao outro,
prende a respiração em uma só espera.
Porque o Arcanjo Arqueiro vem vindo,
cruzando e atravessando galáxias melancólicas e tristes,
com uma única missão:
libertar a nossa pátria, a nossa alma e o nosso lar,
das correntes frias e invisíveis desta noite sem fim.
E quando a sua última e derradeira flecha,
rápida como o destino,
cortar o céu ao meio em dois raios de luz,
talvez, finalmente, os homens compreendam e aprendam:
que até a mais profunda e escura tristeza,
quando tocada pela graça divina,
pode, enfim, florescer em luz.