O arcanjo arqueiro

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 13 de Maio de 2026 ás 18h 12min

O Arcanjo Arqueiro

 

de Rosy Neves

 

Sob o céu de ferro das cidades adormecidas,

ouve-se novamente o rumor das asas antigas.

Não é vento.

Não é tempestade.

É o Arcanjo Arqueiro voltando

pelas escadarias invisíveis do cosmo.

 

Traz um arco feito de auroras mortas,

e flechas banhadas

no silêncio de Deus.

 

Os homens erguem torres de espelhos,

coroas de vaidade,

tronos de fumaça e orgulho,

mas o Arcanjo atravessa os séculos

com os olhos ardendo de eternidade.

 

Cuidado...

Cuidado...

Pois ele não vem ferir a carne,

vem quebrar o ego humano,

essa muralha fria

que separa o homem das estrelas.

 

Sua primeira flecha

rasga os reis de si mesmos,

faz cair das bocas

os discursos de ouro apodrecido.

 

A segunda flecha

parte os espelhos da soberba,

e cada fragmento revela

o rosto assustado da alma.

 

Então o mundo silencia.

As cidades tremem como catedrais vazias,

e até os mares escondem seus rumores

diante daquele ser celeste

vestido de constelações apagadas.

 

O Arcanjo Arqueiro caminha lentamente

sobre rios cósmicos de névoa,

enquanto luas antigas

acendem lanternas para sua passagem.

 

Há tristeza em seus olhos.

Uma tristeza funda, divina,

como quem ama demais a humanidade

para deixá-la perdida em si mesma.

 

Ele aponta o arco para o céu,

e uma chuva de luz atravessa a noite.

 

Os homens choram sem entender,

sentindo dentro do peito

as correntes invisíveis do orgulho

se romperem uma a uma.

 

E pela primeira vez em eras,

alguém escuta o próprio coração

batendo baixo

como um pássaro ferido

tentando voltar para casa.

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