O anjo das asas quebradas

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 01 de Maio de 2026 ás 11h 30min

O Anjo das asas quebradas

 

Ele desceu sem estrondo,

sem a fanfarra que se espera de quem vem

dos céus imaculados.

 

Suas asas, outrora vastas

como nuvens dobradas sobre si mesmas,

eram agora um esfarrapar de seda rasgada,

um mapa de dores antigas

pintado em tons de poeira e esquecimento.

 

Sua queda não foi um tombo,

mas um deslizar lento e silencioso,

como pétalas de rosa que se desprendem

num dia de outono sem vento.

 

A aterrissagem foi suave,

num campo de flores silvestres

que mal sentiram seu peso,

o peso de um ser que já não voava.

 

A luz em seus olhos, que antes era um sol,

um convite para o infinito,

agora era um reflexo turvo

de um espelho quebrado em mil pedaços.

Não havia mais o brilho celestial,

apenas a sombra tênue

de uma saudade que o consumia,

uma saudade de alturas que não podia mais alcançar.

 

Os homens o encontraram

e não o reconheceram.

 

A coroa de estrelas que adornava sua testa

havia se transformado em um halo de sofrimento;

os ombros, que antes sustentavam o peso do firmamento,

curvavam-se sob o fardo da gravidade.

Chamaram-no de mendigo, de sonhador,

de um louco com um olhar perdido.

 

Ele tentou explicar,

mas as palavras saíam truncadas,

como um pássaro ferido tentando cantar.

Falar sobre os ventos que o carregavam,

sobre as nuvens que eram seu leito,

sobre a dança dos planetas ao som de sua melodia,

era como tentar descrever o pôr do sol

a uma criança que nunca viu o céu.

 

Suas asas quebradas eram um segredo

guardado em dobras de sua pele etérea.

Ninguém via a glória que ali repousava,

apenas a fragilidade de um sonho

esmagado contra a rocha da realidade.

 

Ele se sentou à sombra de uma árvore,

observando os pássaros que voavam livres,

e um suspiro escapou de seus lábios,

um eco de algo que um dia foi.

 

Talvez um dia

alguém olhe para suas asas

e veja não a quebra,

mas a história que elas contam.

 

A história de uma queda

que não é o fim,

mas apenas um novo começo

num chão que também tem sua beleza

e seus próprios caminhos

para quem souber olhar

com o coração aberto

e a alma em silêncio.

Comentários

O anjo de asa quebrada escolheu seu caminho

ADAILTON LIMA | 01/05/2026 ás 18:43
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