O anjo adormecido
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 14 de Fevereiro de 2026 ás 11h 34min
Eu juro que vi um anjo
Não em vitrais poeirentos,
nem na névoa densa de um sonho fugaz,
mas lá,
onde o tecido do nada se estica,
no silêncio frio da vastidão cósmica.
Era um sono profundo,
um descanso merecido
depois de carregar o peso de todas as orações não atendidas,
de sussurrar conforto em buracos negros
e costurar a luz nas bordas da escuridão.
Seus ombros,
gigantescos como nebulosas distantes,
pareciam envoltos em poeira estelar fria,
um manto bordado com a morte lenta das estrelas mais antigas.
Vi as asas,
imensas,
não de penas brancas e leves,
mas de pura energia condensada,
pulsando com a cor do tempo que ainda não foi contado.
Ele flutuava,
perfeito em sua imobilidade,
entre galáxias que giravam em câmera lenta,
um ponto de paz absoluta
na dança caótica da criação e da destruição.
Seus olhos,
mesmo fechados,
pareciam guardar a memória de todos os sóis,
e a tristeza silenciosa de cada planeta que nunca soube florescer.
Havia uma calma ali,
uma ausência de julgamento
que a Terra jamais conseguiu entender.
Eu era apenas um grão de poeira consciente,
na borda de um telescópio esquecido,
e por um instante,
o infinito se dobrou para me mostrar
a fragilidade da beleza suprema.
Não houve trombetas,
nem coro angelical estrondoso,
apenas o zumbido baixo da matéria escura
e a respiração ritmada
daquele ser divino adormecido.
Ele não estava esperando nada,
não pedia nada,
apenas existia como a promessa
de que algo belo e inexplicável
ainda persiste
na mais fria e distante margem do universo.
E eu,
testemunha acidental,
senti o peso do meu corpo diminuir,
percebi a insignificância gloriosa do meu ser,
e guardei o segredo:
o anjo dorme,
e o cosmos inteiro zela pelo seu sono.