O AMOR QUE TRANSFORMA

Educação | | Isolti Cossetin
Publicado em 15 de Outubro de 2026 ás 15h 08min

O AMOR QUE TRANSFORMA

Hoje, Dia do Professor, revisitei minha trajetória docente, iniciada em fevereiro de 1984. Ao longo de quatro décadas de profissão, tive milhares de alunos. Sempre procurei ir além do ato de ensinar: gostava de acolher cada criança com carinho, respeitando suas singularidades e procurando enxergar, para além do aluno, o ser humano que ali estava.

Alguns deles marcaram profundamente minha vida, assim como, de alguma forma, também deixei marcas na vida de alguns. Entre tantas lembranças, há uma que o tempo não conseguiu apagar. A lembrança de Luís.

Ele não era meu aluno, mas estudava na mesma escola em que eu trabalhava. Frequentava a terceira série do antigo primário no período da manhã, enquanto eu lecionava à tarde para uma turma da mesma série. Era o ano de 1985.

Luís era criado pelos avós, estava fora da idade esperada para a série e carregava a fama de menino indisciplinado. Depois das férias de julho, aconteceu um episódio muito triste. Diante da turma, faltou com respeito à professora e, como já acumulava um histórico de reincidências, acabou expulso da escola.

Quando soube do ocorrido, fiquei profundamente triste. Alguma coisa dentro de mim dizia que aquele menino ainda merecia uma oportunidade. Procurei a diretora e pedi que adiasse a expulsão. Propus que, a partir da semana seguinte, Luís passasse a frequentar minha turma, no período da tarde.

A diretora mostrou-se receosa. Afinal, havia motivos para sua preocupação. Mas insisti, apresentei meus argumentos e pedi que acreditasse na possibilidade de uma mudança. Depois de muita conversa, ela concordou.

Na semana seguinte, Luís chegou à minha sala. Estava tímido, quieto, meio desconfiado. Aos poucos, com jeitinho e cuidado, fui ajudando a turma a aceitar sua presença. E, para minha alegria, as coisas começaram a dar certo. Luís foi encontrando seu lugar entre nós.

Até que, certa tarde, quando acompanhei os alunos até o ônibus escolar que os levaria para casa, o motorista nos avisou que um dos pneus estava furado. Precisaria ir até a borracharia, e a espera levaria alguns minutos.

Achei melhor retornar com as crianças para a sala de aula.

Foi quando Luís me olhou firmemente e disparou:

“Saí da sala para ir para casa. Agora, nem o diabo me leva de volta!”

Respirei fundo. Por um instante, procurei a resposta que não ferisse sua dignidade, mas que também não abrisse mão dos limites que precisavam ser respeitados. E ela veio, serena:

— Tens razão, Luís. Saímos para ir para casa, mas, como você ouviu, não temos culpa alguma de o pneu estar furado. Não estou vendo o diabo aqui, portanto, ele não te levará para a sala. Podes ficar aqui fora, mas lembra-te: se não voltares comigo para a sala, amanhã não terás mais lugar na minha turma.

Não houve discussão. Peguei meus alunos e voltamos para a sala.

Para distrair a turma, inventei algumas brincadeiras. Pela janela, vi Luís no campo de futebol. Não o chamei. Não insisti. Deixei que tivesse seu tempo.

Alguns minutos depois, ouvimos batidas à porta.

Senti um alívio imediato, imaginando que fosse a secretária avisando que o ônibus estava pronto. Mas não era ela.

Era Luís.

Estava com os olhos marejados e o semblante de quem carregava, junto com a vergonha, o peso de uma decisão difícil. Aproximou-se e pediu perdão pela atitude. Depois, perguntou baixinho se poderia entrar.

Olhei demoradamente em seus olhos. Havia verdade naquele olhar. Havia arrependimento.

Abri os braços e lhe dei um abraço demorado. Disse que estava perdoado, mas que aquela atitude não deveria se repetir.

E Luís entrou.

Talvez, para quem olha de fora, tenha sido apenas um pedido de desculpas, um abraço, uma tarde comum numa escola do interior. Para mim, porém, aquele momento ficou guardado como uma das lembranças mais bonitas da minha trajetória docente.

No dia 18 de setembro de 1985, Luís fez sua Primeira Eucaristia. A família conseguiu pagar por apenas três fotografias daquele dia. Uma delas está comigo até hoje, atravessando o tempo como uma pequena janela para uma história que nunca esqueci.

Nunca mais soube de Luís. Não sei por quais caminhos a vida o levou, que sonhos realizou ou que desafios precisou enfrentar. Mas guardo comigo a lembrança daquele menino que, por alguns instantes, esteve prestes a perder mais uma oportunidade e que encontrou, em uma professora, alguém disposto a acreditar nele.

A fotografia permanece. E, com ela, a certeza de que ensinar nunca foi apenas transmitir conhecimentos. É também acolher, estabelecer limites sem humilhar, oferecer oportunidades e reconhecer, mesmo em meio às atitudes mais difíceis, a possibilidade de transformação.

Aprendi, ao longo dos anos, que nem toda semente floresce diante dos nossos olhos. Algumas seguem seu caminho longe de nós, e talvez nunca saibamos que frutos produziram.

Mas continuo acreditando que o amor, quando caminha junto com a firmeza e o respeito, pode transformar uma pedra bruta em diamante.

E Luís, mesmo sem saber, deixou essa lição para sempre comigo.

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