Nunca ouve uma noite tão negra como aquela
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Março de 2026 ás 11h 12min
Nunca houve uma noite
tão densa,
tão absoluta em negrume
quanto aquela.
O céu, um veludo sem estrelas,
engoliu a lua inteira,
e a escuridão não era apenas ausência de luz,
era uma presença fria, palpável,
que se aninhava nos ossos.
Nessa sombra sem fim,
eram teus sussurros,
a única paisagem audível.
Eram como as marés do oceano profundo,
quebrando na costa invisível da minha alma,
ondas de som baixas, insistentes,
que vinham e iam,
levando consigo pedaços de certeza.
Tua voz, um murmúrio salgado,
tão poderoso em sua suavidade,
que tinha a força de apagar tudo o que era firme.
Apagava os faróis.
Os faróis que eu teimava em manter acesos,
sinais de porto seguro,
promessas de manhã.
Teu segredo, teu adeus sussurrado,
era uma inundação lenta
que afogava a luz,
uma névoa persistente
na lente do meu norte.
E então,
o silêncio veio depois da última onda.
Tu te foste.
Um vácuo deixado onde o som habitava.
A escuridão, antes tua cúmplice,
tornou-se minha única herança.
Hoje,
o sol pode nascer,
pode aquecer a pele,
pode pintar o mundo com cores vivas,
mas eu ainda habito
o espaço
entre o último sussurro
e a manhã que nunca realmente chegou.
Vivo na sombra
daquela noite.
Não uma sombra física,
mas uma sombra da memória,
um lugar onde a luz tem medo de entrar.
Os faróis permanecem apagados.
Eu sou o vigia de um mar que secou,
guardando o eco da maré
que levou tudo o que eu podia ver.
E a noite negra,
aquela única, inigualável,
continua a ser
o meu único horizonte.