Noites frias
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 20 de Fevereiro de 2026 ás 05h 52min
Nas noites fundas, quando a lua brilha fria,
E o corpo adormece em sono tão profundo,
A mente viaja, sem ter melancolia,
Pelos caminhos raros de outro mundo.
Os sonhos chegam, como um mar sem fim,
Trazendo segredos que a vigília esconde,
Coisas da vida, num jardim ou num motim,
Que a luz do dia jamais corresponde.
O sonho tece um véu de cores vivas,
Com fios dourados e com sombras leves,
Mostrando sendas antes esquecidas,
E verdades que a razão não se atreve.
Vemos castelos feitos de cristal fino,
E rios que correm para o lado oposto,
Mistérios guardados no mais puro hino,
Um tesouro oculto, talvez um desgosto.
Há rostos queridos que voltaram de repente,
Com sorrisos ternos, que a saudade anseia,
E gestos esquecidos, mas tão presentes,
Que a alma recorda e o coração permeia.
A voz de um amigo que partiu sem aviso,
Murmura conselhos no silêncio etéreo,
Um pacto rompido, um antigo feitiço,
Que a lógica diária não traça no critério.
O medo antigo, que no peito se aninhava,
Aparece, por vezes, como um grande dragão,
Mas no sonho, a força que em nós habitava,
Dá-nos a coragem para a confrontação.
Vencemos batalhas sem mancha ou ferida,
Recuperamos a fé que parecia finda,
A coragem oculta que a alma tinha esquecida,
Revela-se inteira, forte e infinda.
Vemos portas abertas para um novo rumo,
Caminhos que a cautela não ousou trilhar,
Um futuro incerto, sem o peso do sumo,
Da dúvida constante que insiste em ficar.
O sonho nos mostra o que poderíamos ser,
Se a voz do receio não fosse tão alta,
O potencial pleno que podemos ter,
A semente lançada que a vida exalta.
Coisas que a vida esconde no tecido breve,
De cada visão que a noite nos empresta,
São desejos mudos, a palavra leve,
A resposta que a alma silenciosa resta.
Pois quando acordamos, sob o sol nascente,
A clareza esvai-se como névoa fina,
Mas fica um eco, um sentir persistente,
Da verdade secreta que o sono ensina.
Guardamos no peito, com carinho e zelo,
As paisagens raras que vimos passar,
O sonho é o espelho, um suave apelo,
Para a vida real que temos de encarar.
E assim, a cada noite, o mistério se revela,
Um pedaço da alma que a luz não alcança,
A vida escondida, qual pequena estrela,
Que no traço do sonho nos dá esperança.