Não há mais solidão em mim
Poemas | Poesia Amorosa | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 05 de Março de 2026 ás 18h 41min
No espelho da manhã,
o reflexo não se encolhe mais.
Não há mais sombra esticada
esperando o fim do dia
para se misturar ao negrume.
A casa respira leve,
as paredes sorriem para o sol
que entra sem pedir licença.
O silêncio não é vazio;
é um tecido denso de presença.
Meu próprio passo no assoalho
não ecoa mais como um grito perdido.
É ritmo, é compasso,
o som de alguém que chegou
e resolveu ficar.
As xícaras na pia,
duas ou apenas uma,
não importam mais as contas.
A conversa flui,
mesmo quando as palavras cessam,
com a melodia da água corrente,
com o calor do pão.
Eu costumava procurar nos olhos alheios
um porto, um mapa,
uma chave para abrir a porta de mim.
Mas a chave estava na mão o tempo todo,
e a fechadura, afinal, era só poeira.
O vento que entra pela janela
traz cheiro de terra molhada,
e eu o recebo sem a urgência de me explicar.
Não preciso justificar o espaço que ocupo,
nem preencher cada centímetro quadrado
com a ansiedade do ser visto.
A cadeira vazia ao lado,
às vezes ocupada,
às vezes livre,
não me causa mais aquele aperto frio.
É só um lugar,
pronto para o descanso,
ou pronto para a ausência gentil.
As lembranças, antes âncoras pesadas,
tornaram-se fotografias antigas,
amarelas, mas não dolorosas.
Eu as vejo, sorrio um pouco,
e volto ao agora,
este agora que se basta.
Em mim não há mais aquele buraco escuro
que pedia para ser preenchido por qualquer coisa,
qualquer ruído, qualquer calor superficial.
Há agora um jardim interno,
cultivado com paciência,
regado com a aceitação calma.
As flores nascem sem plateia,
os espinhos recuam sem luta.
Eu sou o céu e sou a chuva,
o abrigo e o caminho.
Não há mais necessidade de resgate.
A ilha percebeu que era continente.
Em mim, agora,
a solidão se dissolveu
na vastidão tranquila do ser.