Não consigo recitar a mim mesmo
| Metapoesia | Antologia Nacional Família Literária: A travessia das palavras | Puto PoetaPublicado em 27 de Agosto de 2026 ás 19h 56min
Não consigo recitar a mim mesmo
É estranho
Recitar meus próprios versos
A poesia dispara e se dispõe de mim pra fora
Logo quando me leio, me vejo alheio ao que lhes digo
Sou carta fora do baralho
Já não é sobre mim
Sempre que escrevo
É assim
Versos, frases e estrofes
Para fora do Mim
Por isso não me leio
Não me recito
E nisso, me odeio
Como um autor
Não se vê na própria escrita?
É simples
Mas complexo
Não me vejo mais a partir
Do segundo verso
Pois tudo que exponho
A partir do que o outro lê
Já não é sobre mim
E de fato nunca é
Quando Eu lhes conto
Um conto
Ele deixa de ser meu
Passa a ser de quem lê
Sofro calado
Talvez seja essa a sina
Do poeta enamorado
Que tem seus encantos
Contados
Por todos os que vivem sonhando
Com um verso certo
Apaixonado
Talvez seja nisso que a literatura
A poesia
Se segure
No frágil momento
Em que você se une
A ideia de que um verso
De que o verso
É sobre você
Logo, não me reconheço mais na escrita
Aquela que por vocês é vista
Não me reconheço mais nos versos
Que por vocês, perversos, se atribuem em flertes
Não faço parte
Desta narrativa
Não me vejo nessa ilha
De histórias
Que conto e vocês aceitam e recontam
Depois de qualquer verso
O poeta só assina
Pois sua sina é saber
Que da língua só lhe pertence a de carne
Que vive em sua boca
Pois suas palavras quando escritas
Viajam longínquas no vento
Restando-lhe o pensamento
De que nada que escreve
É de fato seu
Sendo sempre
Do próximo que vos leu
Não sendo culpado eu
Porém deixando de me ver
No que escrevi
E acreditei que era meu.