Na noite em que partiram o coração do Rei Arcanjo
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 04 de Agosto de 2026 ás 19h 12min
Na Noite em que Partiram o Coração do Rei Arcanjo
Rosy Neves
Na noite em que partiram o coração do Rei Arcanjo,
eu estava lá.
Vi o céu recolher suas estrelas
como quem fecha um antigo livro de preces.
Eu o vi chorar.
Dos seus olhos nasciam dois Bósforos silenciosos,
rios tão profundos
que nem a lua ousava atravessá?los.
Sobre aquelas águas,
lírios brancos navegavam lentamente,
como frágeis barquinhos de papel
levados pelo vento das eternidades.
Ninguém pronunciava palavra alguma.
O silêncio, vestido de veludo,
ajoelhou?se diante do pranto do Rei.
Até os minaretes da noite
inclinaram suas sombras em reverência.
As gaivotas deixaram de cantar,
e as ondas do Bósforo
guardaram o luto dentro das conchas.
Dizem que, desde então,
cada lírio que floresce à beira das águas
traz uma lágrima daquele coração partido.
E eu, peregrina das noites sem fim,
ainda volto àquela margem invisível,
onde o Rei Arcanjo chorou em silêncio,
e seus rios de luz continuam correndo,
levando lírios, estrelas
e barquinhos de papel
para um mar que pertence somente
à eternidade.