MINHA LINDA TULIPA
| Cartas | 2026/8 Antologia A quem ainda escrevo? | Edson BentoPublicado em 07 de Agosto de 2026 ás 18h 08min
Para minha Mirina,
Minha linda Tulipa,
Eu não sei ser pouco. E quando se trata de você, eu desaprendo de vez a ser contido.
Sou Cravo, você sabe. Levemente altruísta, dizem. Mas com você, meu altruísmo falha. Porque eu quero que você seja feliz, sim, que floresça onde quiser... mas eu confesso: eu rezo todo dia para que esse onde seja perto de mim. Bem perto.
Desde que você se foi, meu diário virou obsessão. Não escrevo mais versos. Eu te escrevo. Cada página é uma tentativa de trazer seu cheiro de volta. Cada poesia do meu mundo imaginário é só um cenário diferente onde a gente não precisou se despedir.
Eu sinto sua falta como a terra sente falta de chuva. Não é uma falta mansa. É uma falta que racha.
Sinto falta do seu jeito de abrir pela manhã. Do seu silêncio que me entendia. Da forma como você me fazia querer ser um Cravo melhor, mais forte, mais cheiroso, só para estar à sua altura.
Se você me perguntar o que eu quero, eu paro de fingir altruísmo agora:
Eu quero seu caule encostado no meu. Eu quero dividir o mesmo sol, a mesma tempestade. Eu quero envelhecer e murchar ao seu lado no mesmo vaso, sabendo que a gente viveu tudo.
Não me pede para ser só amigo do seu jardim. Eu tentei. Eu não consigo te admirar de longe. Eu te quero de perto. Inteira.
Se ainda houver em você um cantinho que lembra de mim, me deixa voltar. Ou me diz onde você está plantada que eu me arranco daqui e vou.
Não me deixa só com os meus versos.
Com toda a saudade que um Cravo pode ter por uma Tulipa,
Teu Cravo, para sempre teu.