Memórias de um rio
Crônicas | 2025 - Antologia Josivaldo Santos e Convidados - Poesia. Ontem - Hoje - Sempre | Manoel R. LeitePublicado em 10 de Janeiro de 2026 ás 09h 03min
Percorro caminhos, construo vias. Não lembro de como surgi, apenas recordo que era estreito, quase como um fio de cabelo. Minhas águas cabiam na palma de uma mão. Mas como a persistência é um dom do meu viver, eu cresci, sobrevivi ampliei em extensão e volume. Me lembro da vida surgindo em mim, peixes e plantas proliferaram. Início e término de existência percebiam em mim, e em minhas margens. Tive muitos obstáculos, porém desviar era necessário, ninguém me continha, cada pedra, cada morro se fizera parte de meu leito, as vezes para serem devorados ou simplesmente vivendo em harmonia.
Teve momentos que fora mais agressivos, não sabia parar, em corredeiras me tornei. Queria ser indomável, não sei, não era calmo, era revoltoso. Alguns me temiam, outros me desafiavam. Porém a vida ali habitava.
Percorro caminhos, construo vias.
A princípio, não sabia para onde ir. Apenas fluía, sem direção exata. O tempo — esse artesão silencioso — foi moldando me moldando. As pedras me ensinaram a paciência, os galhos me mostraram o que é resistência. Eu, que um dia coube no gesto de um menino curioso, me estendi pelos vales e comecei a aprender a arte de existir.
Em mim, a vida se instalou. Peixes e plantas nasceram em minhas águas, aves. Era abrigo e passagem, começo e fim de tantas pequenas histórias. Via o nascer e o morrer acontecer em silêncio, como se tudo fizesse parte de um mesmo fôlego eterno.
Tive muitos obstáculos. Às vezes, as montanhas se colocavam à frente, desafiando minha vontade de seguir. Mas eu aprendi que desviar não é desistir — é apenas encontrar outro caminho. Nenhuma pedra foi capaz de me conter por completo; todas se tornaram parte de mim. Algumas foram engolidas, outras apenas acariciadas pela espuma do meu cansaço.
Houve tempos em que fui mais agressivo. As chuvas me transformaram em correnteza furiosa. Eu rugia, me lançava contra as margens como quem exige espaço. Tinha a força dos ventos, o impulso da tempestade. Era revolta e movimento. E, mesmo assim, a vida permanecia em mim — mesmo quando tudo parecia ruir. Também fui calmaria. Aprendi que também há sabedoria no repouso. As águas quietas refletem o céu com nitidez, e só a tranquilidade permite ver o que há por dentro. Foi nesses momentos que descobri o sentido do tempo: ele não corre contra mim, corre comigo.
Vi gerações humanas surgirem e desaparecerem às minhas margens. Cidades nasceram, cresceram, se espalharam, e muitas vezes me feriram. Jogaram em mim o que não cabia em suas memórias, em seus erros, em suas sobras. Eu suportei. Aprendi a guardar o que o homem quis esquecer. Carrego suas histórias nas profundezas. Algumas são belas, outras são feridas que o tempo ainda tenta curar. E, ainda assim, nunca deixei de seguir. Seguir é meu verbo, meu destino, meu nome não dito.
Certos dias, sinto saudade de quando era apenas um fio d’água. A infância do rio é pura e livre — não conhece a pressa nem o peso do mundo. Hoje sou largo, maduro, experiente. Já vi nascer e morrer sonhos demais. Já abracei o sol e beijei o sal das marés. Sou feito de memórias, e cada gota em mim guarda um instante que não se apaga.
Em noites silenciosas, quando a lua se deita sobre mim, penso no mistério da existência. Quantas vidas se espelham em mim sem perceber? Homens e mulheres caminham buscando sentido, tropeçam nas pedras que um dia também me desafiaram. Talvez sejamos iguais: todos tentando seguir, todos querendo chegar sem saber onde é a chegada. Percebo crianças brincando às margens. Elas não me temem, apenas me observam com curiosidade e alegria. Nelas vejo o reflexo do que um dia fui: um ser curioso, desobediente e cheio de sonhos. O tempo passará para elas também, e talvez, quando adultas, compreendam que tudo o que existe é fluxo — nada é permanente, tudo é movimento.
Certo dia, percebi que o mar me chamava. Um convite antigo, escrito nas marés. Era como se uma voz sussurrasse: “Vem, o teu destino é se misturar.”
Hesitei. Eu, que sempre segui, temi o fim. Pensei que ao chegar ao mar eu desapareceria, que perderia minha identidade. Mas o mar não é o fim. O mar é a expansão. E, eu fui.
Cada curva do caminho uma lembrança, cada remanso, uma despedida. Pássaros me acompanhavam em revoada, em ritual de dança e vida. Nas últimas terras, olhei para trás e vi tudo o que fui: o fio tênue, o córrego ansioso, o rio bravo, o espelho sereno. Tudo ainda estava em mim, mas agora eu era maior que todos os meus começos.
Quando finalmente alcancei o mar, não senti medo. Senti pertencimento. Minhas águas se misturaram às ondas, e em vez de desaparecer, eu me tornei imenso. Descobri que o destino do rio não é morrer no mar, é renascer nele. Foi então que compreendi o que eternidade não é permanecer igual, mas seguir sendo, em formas diferentes.
O mar me acolheu como se me esperasse desde sempre. Minhas águas agora tocam outras terras, visitam outros céus. Sou nuvem, sou chuva, sou nascente novamente. Sou o mesmo e sou outro.
Quando alguém caminha à beira de um pequeno fio d’água, talvez escute minha voz sussurrando entre as pedras. Sou eu, o velho rio, lembrando que tudo o que flui vive. Ontem fui nascente. Hoje sou corrente. E sempre serei movimento.