Me sentia preso
| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Maria LurdesPublicado em 15 de Outubro de 2026 ás 14h 33min
Prosa Poética — 07 de setembro de 2026
Resolvi andar, pois me sentia preso
Resolvi andar para sair de onde me sentia preso. Logo adiante, passei por uma lagoa, mas não havia água. Encontrei pelo caminho um senhor e perguntei:
— Cadê a água?
O senhor olhou para um lado e para o outro e me disse:
— Aqui não tem água.
Vi um cachorro andando na estrada. Ele nem olhou para mim. Estava muito ofegante. Senti pena dele, pois acho que estava muito cansado e com sede.
Mas não havia água ali para ele. O senhor resolveu ficar por ali mesmo, sentou-se debaixo de uma árvore, e eu continuei a andar.
Mais adiante, passei por outra lagoa, ainda com a esperança de encontrar dois goles de água.
Mas, para minha tristeza, foi um desespero! Minha garganta já estava seca. Fiquei pensando no coitado do cachorro, que não tinha nem uma gota de água para matar a sede.
Parei para descansar, tirei o meu chapéu, cobri o rosto e fiquei encostado no tronco de uma árvore chamada gameleira.
Fiquei ali por meia hora, até que, de repente, ouvi um trovão. Pensei logo: parece que vai chover! Levantei-me e disse:
— Graças a Deus! Vou molhar a minha garganta, e o cachorro vai matar a sede!
Lembrei-me também daquele senhor, que poderia estar com sede.
Começou a ventar e a cair granizo. Juntei as mãos para aparar a água, mas só caía granizo. Peguei algumas pedrinhas de gelo para refrescar a garganta e pensei: “E o coitado do cachorro? Ele não tem habilidade para aparar o granizo!”
Continuei andando em direção ao lugar onde iria ficar por uns dias. Depois, fui embora e refiz o mesmo trajeto, mas ninguém deu notícias daquele animal. O senhor também havia desaparecido, sem deixar rastros.
E as lagoas? A chuva nem sequer passou por lá. Tudo estava muito estranho: nem o cachorro, muito menos o senhor, estavam por ali. Será que o que vi foi apenas uma miragem?
Mas tudo bem, não vou pensar nisso agora. Estou um pouco cansado; a viagem foi longa. Estou de volta, mas só não consigo esquecer aquele que estava de quatro patas, pois tinha dificuldade para aparar o granizo e não encontrava nem uma gota de água.
Maria Lurdes Joana Ribeiro