Manhãs de girassóis
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 14 de Março de 2026 ás 08h 38min
As longas manhãs
de um tempo de girassóis
O orvalho ainda beijava a grama
quando o sol hesitante
decidia subir no céu azul
sem pressa nenhuma.
Eram manhãs esticadas,
feitas de paciência e luz dourada,
onde o tempo parecia ter esquecido
de correr.
As janelas abertas deixavam entrar
o cheiro de terra molhada
e o murmúrio lento da vizinhança acordando,
um som abafado, distante.
No quintal, os girassóis,
gigantes silenciosos,
viravam seus rostos cheios de sementes escuras
na direção exata do astro rei,
numa devoção diária e muda.
Esperávamos.
Não sabíamos bem o quê,
mas a espera era doce,
temperada com o aroma
do café coado no coador de pano.
As cadeiras de vime rangiam levemente
sob o peso dos corpos preguiçosos.
As conversas eram poucas,
deixadas para o calor mais forte da tarde.
Era o silêncio fértil
que só o meio do ano conhece,
quando a vida desacelera para absorver
todo o calor recebido.
As sombras eram longas,
esticando-se preguiçosamente pela calçada,
desenhando padrões mutáveis
na pedra quente.
Lembro-me daquele amarelo intenso,
quase doloroso de tão puro,
que inundava tudo,
lavando a alma do cinza.
As migalhas do pão
esperavam os pardais atrevidos,
que vinham e iam,
sempre ligeiros,
em contraste com a lentidão do dia.
As longas manhãs,
elas não acabavam, apenas se transformavam,
devagar,
no meio-dia vasto e pesado.
Mas naquele despertar lento,
naquela promessa de dia inteiro sob o sol,
havia uma plenitude simples,
o girassol ensinando a arte
de apenas olhar para a luz.