MACARRÃO DE CASAMENTO

Poemas | Prosa Poética | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Edson Bento
Publicado em 15 de Setembro de 2026 ás 17h 19min

Macarrão de Casamento

Minha infância foi um quintal de maravilhas. E se eu pudesse abrir uma gaveta desse tempo, tiraria de lá está aqui.

Nasci no norte do Paraná, no meio de uma fazenda onde o mundo era grande e o tempo andava devagar. Lá, casamento não era só cerimônia. Era acontecimento. Notícia que corria de porteira em porteira. Data marcada a fogo no calendário da roça.

Eram sempre aos sábados. Logo cedo, a comitiva se arrumava — vestidos passados a ferro de brasa, chapéus, perfumes baratos e o melhor sorriso. Partiam para a cidade vizinha onde o padre esperava. Padrinhos, madrinhas, acompanhantes, todos com a mesma missão sagrada: comprar o presente dos noivos.

Voltavam no cair da tarde, cansados da estrada de chão, mas com os olhos acesos. Porque a noite prometia.

E prometia com barulho.

Eu me lembro como se fosse agora: o caminhão dos noivos apontando na curva da estrada, a poeira subindo. E então, o céu se rasgava. Fogos de artifício! Pum! Pum! Estouros que faziam as galinhas se esconderem e as crianças correrem para o terreiro. Era o aviso: chegaram! O riso ficava mais alto, os homens ajeitavam o chapéu, as mulheres enxugavam a lágrima que nem tinha caído ainda. O céu da fazenda, tão acostumado com estrelas, ganhava estrelas de pólvora por alguns minutos.

Na casa da noiva, os presentes iam se acumulando sobre a cama, como um altar de curiosidades. Pacotes embrulhados, laços tortos. Um mistério que ficava no ar. Eu olhava de canto, mas meu altar era outro.

O meu interesse morava na cozinha.

Criança que eu era, eu não queria discurso. Eu queria cheiro de comida diferente. Queria o estalo do refrigerante abrindo, a língua pintada de doce, pirulito grudando na mão, bala de coco, pipoca estourando na panela grande.

E lá vinha o banquete: carne assada chiando, linguiça corada, arroz soltinho, mandioca que esfarelava na boca, maionese de festa — aquela que só existe em casamento — e no centro de tudo, em bacias enormes, fumegantes, a minha perdição: a macarronada.

Não era qualquer macarrão. Era o comprido, da marca Liane, numerado de 0 a 6. Os mais grossos, encorpados, que abraçavam o molho como quem abraça saudade. Eu já avisava minha mãe: "Quero só macarrão". E só aquilo já me bastava para ser feliz.

Ao lado, imponente, o garrafão de 5 litros de vinho — seco ou suave. Para os adultos. Eu com meu copo de guaraná, espiava aquela bebida escura de gente grande.

Foi num descuido do meu pai — desses descuidos que o destino fabrica — que o copo dele ficou ao meu alcance. Vinho tinto, doce. Num gesto de alquimista travesso, derramei um gole generoso sobre o meu prato.

O vermelho se misturou ao molho. O doce encontrou o salgado. E casou. Casou com o meu paladar como se tivesse sido feito para ali desde sempre.

Levei, claro, uma bronquinha mansa. Mas o que ficou não foi a bronca. Foi o sabor.

E a noite seguia, o sanfoneiro puxava o baile, a poeira subia dos pés que dançavam. Até que, exatamente à meia-noite, quando o dia virava e o destino dos noivos começava de novo, vinha o ritual mais esperado.

O bolo.

Branco, alto, todo enfeitado, como um pequeno castelo de açúcar. Colocavam-no no centro da sala e fazia-se silêncio. Os noivos, de mãos dadas sobre a mesma faca, cortavam a primeira fatia sob os olhares de todos. Meia-noite em ponto. Como se aquele corte selasse o tempo. Depois, o açúcar se espalhava entre nós, crianças sonolentas e felizes.

Ainda não me casei. Mas carrego comigo, até hoje, intacto na ponta da língua e no fundo do peito, o estouro dos fogos na chegada, o gosto do macarrão com vinho e a doçura daquele bolo cortado quando um dia se tornava outro.

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