Lírios do céu
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 17 de Maio de 2026 ás 18h 09min
Lírios do Céu
de Rosy Neves
Dei-me os lírios do céu,
em línguas repartidas de fogo,
como se cada pétala fosse
um fragmento do infinito
ardendo mansamente
sobre os ombros cansados da Terra.
E eu os vi.
Brancos como o primeiro silêncio
antes da criação das estrelas,
profundos como a neve
que repousa sobre montanhas eternas.
Havia neles uma beleza severa,
dessas que não sorriem facilmente,
porque nasceram da pureza
e aprenderam a guardar mistérios.
Deixe-me tocá-los…
Ainda que minhas mãos
tragam poeira das estradas humanas,
a ferrugem das despedidas,
o peso das noites sem consolo.
Deixe-me repousar o rosto
sobre seus cálices celestiais,
para que a minha alma
beba alguma claridade.
Estou cansado…
Há muita penumbra aqui embaixo.
As cidades têm olhos de fumaça,
os homens caminham como barcos partidos,
e os sonhos apodrecem lentamente
nos cantos frios da memória.
Por isso ergo os braços ao alto,
como quem procura chuva
em um deserto de séculos.
Dei-me os lírios do céu.
Que suas línguas de fogo
incendeiem o que há de sombrio em mim,
que queimem minhas antigas tristezas
como folhas secas no outono da alma.
Purifica-me.
Faz de meu coração
um jardim silencioso,
onde a eternidade possa repousar
sem medo da noite.
E se eu chorar,
que minhas lágrimas caiam brancas,
como pétalas atravessadas de luz
voltando devagar
para as mãos de Deus.