LENDA
| | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Bernadete Crecencio LaurindoPublicado em 25 de Junho de 2026 ás 11h 12min
LENDA
Conta-se
Pelo sertão,
Que às noites de lua cheia,
De verão,
Vê-se um menino
À procura do rio...
O rio que deixara ali
Quando se fora,
Fazia tempo.
Ele tinha ido, mas
O rio ficara ali
Foi nesse tempo
Que o sol inclemente
Engoliu
O rio
E alguém
Afogou sua nascente
O menino cresceu
Longe dali
Mas nunca esqueceu
O rio
Que ficara ali
O menino virou homem
Envelheceu
Morreu
Longe dali
Agora,
Seu espírito,
Livre,
Volta
A ser o menino
E nas noites claras
De verão
O menino
Vem à procura
Do rio
Mas aí,
O rio,
como o menino,
O rio
se foi
Não está mais ali...
Comentários
Bernadete nos brinda com uma elegante obra profundamente lírica, nostálgica e melancólica, que entrelaça o folclore do sertão brasileiro com a delicada denúncia ecológica. Há uma forte reflexão existencial sobre o tempo, o etéreo, a memória e a perda!
Querido Poeta! Gratidão, pela carinhosa atenção e pela interessante e bela análise literária do meu poema! "Lenda" foi-me inspirado, surpreendentemente, de um sonho; acordei-me de madrugada e tinha a história pronta. O rio, ele existe, é o rio que banha a pequena cidade onde me criei e se chama Rio Capivari. Foi com ele que sonhei. Ele não secou, mas uma vez em que fui lá, fiquei penalizada, ao ver como ele estava assoreado, com imensos bancos de areia. Creio que eu trouxe essa dor comigo. Também sonhei com o menino e até agora, me lembro da desolação que vi em seus olhos.