Lembranças revisitadas

| | Pequenas histórias para entender a vida | Manoel R. Leite
Publicado em 22 de Abril de 2026 ás 05h 32min

Houve mais silêncio, desta vez mais acolhido que constrangido. A conversa já não tateava. Caminhava.

Helena resolveu arriscar:

_ Você já teve raiva de mim?

Raul pensou antes de responder.

_ Raiva inteira, não. Tive uma espécie de ferida orgulhosa. Depois ressentimento curto. Mais tarde, compreensão. E, por fim, um afeto sem destino certo. Você?

_ De mim ou de você?

_ Dos dois.

_ De mim, algumas vezes. De você, não. Talvez porque você nunca tenha me apertado. Isso tornou tudo mais bonito e mais difícil.

_ Queria dizer fica. Queria dizer escreve direito. Queria dizer não me trate como uma estação da juventude. Mas eu tinha medo de parecer pequeno.

Helena soltou uma risada baixa.

_ Engraçado! Passei anos imaginando que você tivesse aceitado tudo com facilidade. E você estava aí, se contendo.

_ Homem também se contém até estragar o próprio destino.

Ele a observou com doçura antiga.

_ É. Talvez o problema sempre tenha sido excesso de contenção.

O alto-falante anunciou, enfim, a plataforma do ônibus de Helena. Ela olhou para o letreiro, mas não se moveu no mesmo instante. Raul percebeu.

_ É o seu?

_ É.

_ Vai dar tempo.

_ Sim.

Nenhum dos dois levantou de imediato. Havia algo quase solene naquele pequeno atraso voluntário.

_ Posso te perguntar outra coisa? - disse Raul.

_ Pode.

_ Se eu tivesse insistido mais naquela época, teria mudado alguma coisa?

Helena não respondeu por impulso. Sabia que certas perguntas merecem menos defesa e mais verdade.

_ Talvez não naquela semana. Nem naquele mês. Eu estava atravessada demais pela vontade de partir. Mas teria mudado a memória. Eu teria sabido que alguém lutou um pouco mais por mim.

Raul assentiu lentamente.

_ Entendi.

_ E se eu tivesse respondido sua última carta?

_ Eu teria ido te ver. Nem que fosse para ouvir um não mais claro.

_ Eu imaginei isso.

_ E por isso não respondeu?

Ela sorriu com honestidade cansada. Ele riu. Depois ficou sério.

_ Não quero transformar esse encontro num acerto de contas tardio. Nem numa fantasia de juventude reeditada. A vida já nos ensinou bastante para a gente estragar isso com dramatização.

_ Concordo.

_ Mas também não quero fingir que foi qualquer coisa.

_ Também concordo.

Raul respirou fundo.

_ Então vou dizer de forma simples. Foi muito bom te encontrar.

Helena sentiu que aquela simplicidade continha mais delicadeza do que muitos discursos.

_ Foi muito bom te encontrar também.

_ Você ainda escreve?

_ Apenas bilhetes, listas, mensagens para as filhas e algumas frases soltas em cadernos.

_ Devia escrever mais.

_ Você ainda guarda fotografias em envelope?

_ Algumas.

_ Devia perder menos.

_ Já perdi bastante.

Ela levantou-se devagar. Raul também. Ficaram de frente um para o outro, próximos o suficiente para que a juventude antiga soprasse entre os dois, mas não próxima demais a ponto de desrespeitar a vida inteira que havia acontecido depois.

_ Você vai para qual bairro?  ele perguntou.

Helena disse.

_ É caminho para mim. Posso te levar, se quiser. Vim de carro.

Ela olhou para a plataforma, para o letreiro, para o fluxo de pessoas subindo e descendo do ônibus que a esperava com sua exatidão impessoal. Depois voltou o olhar para Raul.

Durante muitos anos, pensou, escolhera sempre o caminho mais previsível quando a memória batia à porta. Talvez por prudência. Talvez por hábito. Talvez por medo de perturbar a ordem conquistada a duras custas. Mas havia tardes em que a vida, sem prometer milagres, apenas oferecia uma chance discreta de não repetir o mesmo gesto.

_ Você ainda dirige com pressa?

_ Menos do que antes.

_ E ainda deixa o resto da frase para o outro entender?

_ Depende da companhia.

Helena sorriu.

_ Então eu aceito.

Saíram juntos pelo saguão, não como quem recupera o que perdeu, porque certas coisas não voltam no formato original, mas como quem reconhece que nem toda lembrança precisa permanecer intocada na margem. Algumas, quando o tempo permite, ainda podem atravessar um pouco da água e tocar a outra borda.

Lá fora, o fim de tarde derramava sobre a cidade uma luz amena, dessas que não exigem pressa. Raul abriu a porta do carro. Helena entrou. Enquanto ele dava a partida, ela olhou uma última vez para a rodoviária.

Pensou então que a memória raramente devolve o que fomos. Devolve apenas o contorno, o rumor, a margem. Ainda assim, às vezes basta. Porque há encontros que não corrigem o passado, mas o iluminam de outra maneira. Isso, para certos corações já cansados, quase sempre se parece com paz.

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