Sinopse:
Ao presenciar o corte do capim para a silagem, antigas memórias da infância retornam, trazendo o cheiro da comida campeira, o som das máquinas e a lembrança do pai em meio à lavoura.
Legado
O verão já dava indícios de que o inverno se aproximava, com suas manhãs e tardes mais frias. Apesar de o sol se fazer presente e o meio do dia ainda ser quente, sabíamos que aquilo duraria só mais alguns dias.
Os campos estavam como um tapete dourado, prontos para irem para a tuia, que, àquela altura, já havia sido limpa e higienizada. Era simples, mas limpa e organizada. Era ali que passavam o inverno inteiro tudo o que a terra havia produzido: várias espécies de abóboras, milho, arroz, feijão, ervilha e alguns tubérculos.
Mamãe tinha um lado inteiro da tuia com prateleiras só para guardar as compotas, feitas com dedicação e cuidado. Ainda hoje consigo me lembrar do brilho dos vidros alinhados e do cheiro doce que tomava conta do ambiente.
Era um dia ensolarado, e a casa estava em movimento. Havia sido mobilizado um mutirão para debulhar o milho. Eu ainda era muito nova, mas lembro-me como se fosse ontem. Ainda consigo ouvir o som da máquina, os grãos caindo sobre a lona, as vozes se misturando ao cheiro seco da palha e os sacos saindo cheios e separados: os que iam para a tuia e os que iam para o mercado.
Da cozinha vinha o cheiro da comida campeira feita no fogão a lenha, forte e acolhedor, misturado ao aroma do café passado na hora. Era como se toda a casa respirasse fartura, trabalho e união.
Hoje, ao ouvir o som da máquina cortando o capim para a silagem e sentir o cheiro fresco da roça, meu coração voltou ao passado. Por um instante, me senti menina outra vez, ajudando meu pai no meio da lavoura, entre o barulho das máquinas e o peso simples dos dias vividos na terra. Então percebi que saí da roça, mas a roça jamais saiu de mim. Ela ainda vive nas minhas lembranças, nos meus sentidos e no legado que meu pai deixou em mim.