Lamento de Saudade
Saudades | Crônica poética | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Bernadete Crecencio LaurindoPublicado em 08 de Maio de 2026 ás 19h 34min
Lamento de saudade
Para minha filha, que está lá nas lonjuras do Canadá.
Por falar em ti, por pensar em ti, lembro-me de dar uma olhada no calendário. Verifico a passagem do tempo, que muda, inexorável.
Entrementes, tudo em volta está igual...
Pela vidraça da janela, o entardecer chora uma chuvinha insistente, manhosa, que se derrama há horas, lembrando o dia que partiste. A penumbra do teu quarto, ao entardecer; tua foto sobre o armário...
Os cães, acomodados, esperando a distribuição da ração. O gato, reclamando espaço no sofá.
Na calçada em frente, o casal de vizinhos, sentados em cadeiras de fios de plástico, aguardando que a noite chegue, para se recolher.
Tudo em volta está igual...
De manhã, o chimarrão e o cheiro do café, junto com o noticiário. Em alegre algazarra, os bem-te-vis e as araras, disputando os frutos do pomar.
A missa das manhãs de domingo, o almoço de domingo. Reunida a turma, as discussões sobre assuntos políticos, as divergências de ideias e opiniões, os relatos dos acontecimentos domésticos da semana e o silêncio que se segue, estando servido o almoço.
Tudo em volta está igual...
A varanda, o quintal grande, as árvores e seus frutos e as hortaliças. O jardim, as folhas secas pelo chão. O pé de quaresmeira branca, que floresce pelo Natal, pela Páscoa; floresce no outono, no verão, na primavera e no inverno...
Tudo em volta está igual...
Perco-me absorta na mesmice das coisas, mas um pensamento, uma lembrança me acode e eu choro... Não, tudo mudou, tudo já não é mais igual. Há um imenso vazio neste cenário: tu!
Comentários
Quando uma pessoa da nossa íntima convivência parte, as coisas, objetos deixados que foram por ela tocados deixam de ser conforto para se transformar num lembrete constante pela falta do ser que as tocava. Bernadete enfatiza a transformação drástica do nosso mundo interior causada pela ausência do ente querido!
Sempre, tuas análises perfeitas e que destacam tão valiosamente, o texto em questão! Obrigada, amigo Poeta!