Certa gaveta conhece mais ausências do que muitos cemitérios. Dormem nela um botão sem camisa, uma chave órfã de fechadura, duas moedas que já perderam a pátria, um pedaço de fita, fotografia comida nas bordas pelo tempo. Nada serviria para comprar pão. Nada mereceria lugar numa vitrine. Ainda assim, mãos hesitam antes de lançá-los ao lixo, reconhecendo naquela pequena república de inutilidades alguma jurisdição sobre o coração.
Utilidade sempre foi palavra severa. Pergunta ao objeto o que ele faz, quanto rende, para que serve. Certas coisas, porém, recusam interrogatório. Preferem permanecer.
Pedra recolhida à margem de um rio não transporta mais o rio, mas conserva em sua pele fria uma tarde inteira. Concha sobre uma estante talvez tenha esquecido o mar; ouvido que se aproxima ainda inventa ondas. Bilhete dobrado quatro vezes já não informa coisa alguma, embora determinado traço da letra consiga abrir, sem chave, um cômodo que o tempo julgava interditado.
Pequenos objetos praticam uma espécie de heresia contra a morte. Sobrevivem ao gesto que lhes deu sentido.
Xícara lascada guarda a memória de uma boca. Colher escurecida conhece o gosto de sopas em noites febris. Lenço amarelado ainda parece conter perfume entre as fibras. Pente de dentes faltantes conserva cabelos que ninguém saberia contar. Tudo tão pobre de preço. Tudo tão excessivo de mundo. Mercadores enlouqueceriam diante desse patrimônio.
Que cifra atribuir ao lápis com que uma criança marcou sua altura na parede? Quanto vale o ingresso de um cinema demolido, se nele ainda cabe o primeiro encontro de duas mãos? Qual tabela alcançaria o valor de uma receita escrita às pressas, manchada de farinha, quando a pessoa que conhecia o ponto da massa já não pode ser chamada da cozinha?
Existem heranças que cabem numa caixa de sapatos. Quem sabe, por isso armários de casas desfeitas pareçam capelas depois do último morador. Cabides vazios. Frascos com um resto de perfume. Óculos dentro do estojo. Sapatos deformados pelo hábito dos pés. Relógio que continua trabalhando para um pulso ausente.
Crueldade delicada: máquinas ignoram lutos.
Objeto inútil, às vezes, é apenas coisa que perdeu seu verbo. Chave que já não abre. Relógio que já não mede. Brinquedo que ninguém brinca. Carta que não precisa chegar. Mesmo destituídos da antiga função, recebem outra gramática. Passam a conjugar aquilo que fomos.
Quase sempre, memória prefere matéria pobre.
Dispensa mármore. Escolhe caixa de fósforos, cheiro de madeira, santinho dobrado, parafuso guardado por razão nenhuma, folha seca entre páginas. Talvez desconfie dos monumentos. E, que grandeza demais atrapalha a lembrança. Crianças compreendem isso antes dos adultos. Enchem bolsos com pedras, tampinhas, sementes, pedaços de vidro arredondados pela água. Recolhem o mundo sem perguntar serventia. Depois crescemos e aprendemos a chamar de lixo aquilo que não produz proveito. Pelo menos de imediato. Alguma sabedoria se perde nesse aprendizado.
Anos mais tarde, diante de uma casa esvaziada, mãos adultas voltam a escolher como crianças. Não levam o móvel caro. Levam um abridor enferrujado. Um caderno incompleto. Um prato rachado. Pequena tesoura. Quase sempre aquilo que parecia menor torna-se insubstituível quando já não existe quem lhe explique a história.
Nem sequer precisemos da história. Cheiro basta. Textura basta. Certo peso sobre a palma basta para que uma porta interior se abra e devolva claridades, vozes, quintais, domingos, cozinhas, mãos trabalhando em silêncio. Passado raramente retorna com solenidade. Prefere caber dentro de um dedal.
Por isso algumas coisas não deveriam ser chamadas inúteis.
Inútil talvez seja apenas o nome econômico daquilo que o afeto decidiu salvar.
Ainda assim, melhor não corrigir a palavra. Deixemos essas pequenas inutilidades quietas em suas gavetas, exercendo clandestinamente o ofício de guardar aquilo que nós, tão ocupados em permanecer, começamos a esquecer.
Um dia alguém abrirá a caixa.
Encontrará uma chave que não abre porta alguma.
E talvez seja justamente ela que abra a casa inteira.