Era jovem, mas nem tanto
Não era feia, era, digamos, arrumada
Inês sabia muito, não imagina o quanto
E ao mesmo tempo sabia tão pouco, quase nada
Um dia Inês conheceu um moço
Era jovem, mas nem tanto, como ela
Seu nome era bem simples, Diogo
Mas o sobrenome que mexeu no coração dela
Era o sobrenome que qualquer Inês gostaria
Era marcante, potente e de grande valia
Inês sabia que ele seria disputado
Precisava dar tudo de si, para não perder tal achado
Seu sonho tornou-se maior que o amor
O problema é que ela não percebeu
Tratou carinho como favor
Chamou um estranho de seu.
Inês o procurava com constância
Fazia de tudo para o conquistar
Ele, por sua vez, preferia distância
Não estava interessado em se aproximar
Ela mudou tudo em si para o agradar
De arrumada, tentou ser a mais linda
Quando sabia responder ou consertar
Se fazia de desentendida
Inês buscava inspiração diária
Via nas outras o que ela achava não ter
E tentou ser a Ana, a Lívia e a Flávia
Mas faltava algo, faltava ela desaparecer
Diogo até deu uma chance
Após muito ela implorar
No entanto, o que para ele era só um lance
Para ela, era o caminho do altar.
A cada dia que passava
Inês reduzia a si um tanto
A moça que sempre cantava
Transformou seu canto em pranto
A cada lágrima que queimava seu rosto
Era um grito da alma a dizer:
Esse sobrenome te dá tanto gosto
Ao ponto de matar-me para por ele viver?
Inês chorou quieta
Não era nem para sua mente ouvir
Pois seu coração tinha uma ideia secreta
Que a dor por Diogo a fez refletir
– Meu sonho é me chamar assim
Isso eu não posso negar
Mas por que dói tanto pra mim?
Que eu saiba não dói tanto sonhar
N’outro dia, ela viu Diogo com outra
Se escondeu e se rendeu a chorar
Só não sabia se de alegria ou por ter sido tola
E, no dia seguinte, correu até a amiga para contar
– Acabou, amiga — disse ela, a choramingar.
– Por que você quis ele? — perguntou a amiga, por instinto.
Ela respondeu:
– Por causa do sobrenome dele, é lindo
É nome de peso, é pra casar!
– O sobrenome é Quecível. Perfeito, não é?
A amiga deu um salto, não sabia se era para rir ou gritar
Virou-se firme para Inês, de uma só vez bradou sem parar:
– É SÓ UM SOBRENOME! ACORDA, MULHER!
NÃO VAI MUDAR NADA PRA TI
NÃO VAI MUDAR SUA VIDA
VOCÊ JÁ É INESQUECÍVEL POR SI
É O QUE DEVERIA SER, QUERIDA!
E, ao tentar ser Inês Quecível
Ela acabou esquecendo a si própria
Não enxergou que já era incrível
E se diminuiu por uma pessoa simplória
Inês não era de família real ou notável
Mas muitos sobrenomes ela tinha sem saber
Inês Perada, Inês Crutável, Inês Timável
E até o tal “Quecível” que ela queria tanto ter
Inês tratou essência como um sobrenome
Que muda a partir de uma decisão no cartório
Mas essência está no sangue e independe do nome
Não aparece só no fim, ele é a conclusão e também o exórdio
Não se retira a essência por amor
Pois o amor é uma soma de essências
Que se fundem para resistir à dor
Complementando assim suas resiliências.