Hoje eu vi a sua lua

| Crônica | 2026/05 Antologia Dias escritos em prosa | Dolores Flor
Publicado em 04 de Maio de 2026 ás 15h 00min

Passei pela cidade quase sem querer olhar demais, como quem atravessa um lugar conhecido com medo de que alguma lembrança reconheça primeiro. Há cidades que não são apenas ruas, praças, casas e esquinas. Algumas guardam nomes que não pronunciamos, passos que não demos, palavras que ficaram esperando um momento mais corajoso. Aquela cidade, para mim, tem esse jeito silencioso de guardar o que nunca coube inteiro na fala e na vida.

 

A lua estava embaçada. Não sei se por causa das nuvens, da noite ou dos meus olhos, que insistiram em marejar antes mesmo que eu percebesse. Havia uma claridade triste no céu, dessas que parecem cobrir as coisas com um véu de saudade. Olhei para cima e pensei que talvez a lua também soubesse disfarçar. Ela brilhava, mas não se entregava por completo. Ficava ali, meio escondida, meio presente, como certas presenças que atravessam a vida da gente sem fazer barulho, mas deixando tudo diferente.

 

Foi então que uma gota de saudade rolou pelo meu rosto.

 

Não chorei de tristeza. Há saudades que não são apenas dor. Algumas são uma forma antiga de permanência. Uma maneira que o coração encontra para dizer: ainda existe. Ainda pulsa. Ainda reconhece. E, enquanto a cidade passava pela janela, eu sentia que também passavam por mim os anos, os silêncios, as conversas guardadas, os gestos pequenos que nunca deixaram de ter importância.

 

Naquela noite, escrevi poucas palavras. Talvez porque a emoção, quando é verdadeira demais, não aceita explicações longas. Escrevi: “Hoje eu vi a sua lua. Estava embaçada... Igual meus olhos lacrimejados... Vi uma gota de saudades rolar pelo meu rosto...” E enviei. Não como quem cobra resposta, nem como quem abre uma porta impossível. Enviei como quem deixa uma flor sobre uma janela antiga. Apenas para dizer, sem dizer tanto, que algumas luas continuam pertencendo a certas lembranças.

 

Na noite seguinte, em outra cidade, olhei para a minha antiga lua.

 

Dessa vez, eu estava diante de um lugar que me conhece desde antes de muitas coisas acontecerem. O banquinho, reformado várias vezes, continuava ali, no mesmo canto, como se tivesse prometido ficar. A madeira já não era a mesma, talvez a cor também tivesse mudado, mas havia nele uma fidelidade que me comoveu. Alguns objetos têm alma porque testemunham o que fomos. Aquele banco sabia de mim. Sabia das minhas primeiras esperas, das minhas primeiras palavras, dos meus primeiros versos escritos para um amor que, desde o início, parecia maior que o espaço permitido pela vida.

 

As árvores cresceram.

 

Antes, pareciam pequenas companheiras de praça. Agora, altas e cheias, espalhavam sombras sobre o chão e movimentavam as folhas com uma delicadeza quase musical. Sob o brilho da lua, elas dançavam como se o tempo não tivesse passado em vão. Fiquei olhando para elas e pensei que talvez o amor também seja assim: cresce em silêncio, muda de forma, cria galhos, perde folhas, floresce em épocas inesperadas, mas continua preso a alguma raiz que ninguém vê.

 

Ali, diante da minha antiga lua, entendi que há lugares que não ficam no mapa. Ficam dentro da gente. A cidade por onde passei guardava uma presença. A cidade onde parei guardava uma origem. Entre uma lua e outra, eu caminhava por dentro de mim mesma, tentando compreender por que certas lembranças voltam com tanta força quando a noite se abre no céu.

 

Talvez porque a lua seja uma espécie de mensageira dos sentimentos que não podem fazer alarde. Ela ilumina sem tocar. Aproxima o que está distante. Entra pelas janelas sem pedir licença. E, quando a saudade é grande, parece dividir o mesmo brilho entre duas cidades, dois silêncios, duas vidas que seguem seus caminhos, mas que, em algum ponto secreto, ainda se reconhecem.

 

Naquele banco, onde um dia escrevi meus primeiros versos, percebi que a escrita sempre foi minha forma mais honesta de permanecer. Quando a voz não pode dizer tudo, a palavra encontra frestas. Quando o gesto precisa ser contido, a frase aprende a caminhar devagar. Quando a vida impõe distância, a literatura inventa uma ponte discreta, feita de imagens, de lembranças e de luas embaçadas.

 

Por isso escrevo.

 

Escrevo porque algumas emoções não nasceram para desaparecer. Escrevo porque há saudades que precisam de abrigo. Escrevo porque, entre a cidade dele e a minha antiga praça, existe uma mulher olhando para o céu e tentando transformar em beleza aquilo que não cabe em explicação.

 

Hoje eu vi a sua lua.

 

Depois, reencontrei a minha.

 

E compreendi que talvez a lua nunca seja de uma cidade só. Talvez ela pertença a todos os lugares onde deixamos um pedaço do coração. Ou talvez, em certas noites, ela apenas nos devolva aquilo que tentamos esconder de nós mesmas: existem lembranças que não passam. Apenas mudam de claridade.

 

Sinop,MT, Maio, 2026.

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