Há um rio que corre silencioso
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 16 de Maio de 2026 ás 20h 33min
Há um rio que corre silencioso
de Rosy Neves
Há um rio que corre silencioso
atrás do mundo.
Não aparece nos mapas dos homens,
nem nas bússolas cansadas dos navegantes.
Corre escondido
por entre montanhas de névoa
e jardins que só os sonhos alcançam.
Ninguém sabe onde fica sua nascente,
nem onde repousa o seu fim.
Dizem os antigos marujos do infinito
que ele nasceu
de uma fonte secreta
dentro de uma estrela partida.
Quando a estrela se quebrou,
seus fragmentos viraram constelações errantes,
e de sua ferida luminosa
escorreu aquele rio lento,
feito de silêncio, eternidade
e memórias que Deus esqueceu no universo.
À noite,
quando o céu abre suas portas azuis,
é possível ouvi-lo.
Ele passa atrás do vento,
atrás das horas,
atrás da própria morte.
Os homens confundem seu canto
com o som distante do mar,
mas não é mar.
É o coração do cosmos
chorando baixinho
pela solidão das galáxias.
Há quem diga
que suas águas carregam barcos invisíveis,
tripulados por viajantes antigos
de olhos cobertos de estrelas apagadas.
Eles navegam sem descanso,
procurando o lugar
onde o rio termina.
Mas o rio nunca termina.
Seu fim é um mar cósmico
além das estrelas,
onde o tempo dorme
sobre ondas de luz prateada,
e luas transparentes
flutuam como lírios celestiais.
Ah...
quem tocar aquelas águas
nunca mais será o mesmo.
Porque o rio conhece segredos
que nenhum livro escreveu.
Conhece o nome perdido dos anjos,
a linguagem das nebulosas,
e o silêncio que existia
antes da criação do primeiro sol.
E às vezes penso
que esse rio também corre dentro de nós.
Dentro dos olhos cansados,
dentro das saudades sem nome,
dentro desse estranho vazio
que nenhuma felicidade terrestre consegue preencher.
Talvez sejamos feitos
das mesmas águas silenciosas
da estrela que um dia se partiu.