Folhas que Não Voltam
No outono, as árvores não choram,
mas algo nelas se despede em silêncio.
Folhas se soltam
como quem já não insiste em ficar.
E caem...
E, ao tocar o chão,
não fazem alarde,
não pedem volta,
não exigem memória.
Apenas cedem ao tempo.
E eu penso nas oportunidades
que passaram por minhas mãos
como essas folhas,
leves, inteiras, vivas,
e, ainda assim, deixadas ir.
Quantas vezes o tempo me ofereceu
um instante completo
e eu, distraída,
olhei para longe?
Quantas vezes o amor
parou à minha porta
com a delicadeza do outono
e eu não reconheci sua chegada?
As folhas não voltam.
Nem as estações repetem o mesmo gesto.
O que se perde
cria raízes na memória,
permanece,
não como presença,
mas como ausência que ensina.
Talvez o outono não seja fim,
mas aviso:
há beleza no que ainda se sustenta no galho,
há vida no que ainda pode ser cuidado.
Antes que o vento leve,
antes que o tempo escolha por nós,
antes que o silêncio ocupe o lugar das palavras é preciso aprender a ficar,
a segurar, a dizer.
Porque há folhas
que não caem sozinhas.
Nós é que soltamos.