Fogo e água
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 09 de Março de 2026 ás 09h 30min
O Fogo e a Água
Ele, labareda dançante,
um coração rubro
que pulsa no ar seco.
Ela, espelho líquido,
calma profunda
que reflete o céu cinzento.
Eram um só, dizem as lendas antigas,
antes que o mundo decidisse
as fronteiras invisíveis.
O toque dele era calor que eleva,
a promessa de vida incandescente.
O abraço dela era frescor que acalma,
o silêncio que nutre a terra sedenta.
Juntos, criavam o vapor,
uma névoa suave,
o suspiro etéreo da união impossível.
Mas um decreto antigo,
uma lei que nem o desejo entende,
os forçou ao exílio.
Hoje, ele queima na distância,
um desejo constante de tocar a superfície fria.
Ele vê seu reflexo distorcido
na miragem que a seca cria.
Sente falta da humildade dela em contê-lo,
de ser transformado, não extinto.
Ela corre em rios longínquos,
murmurando nomes ao vento que não ouve.
Em cada gota que evapora,
ela envia uma prece silenciosa,
um lamento que se transforma em orvalho.
Sonha com a força que o consumiria,
mas que também a faria subir, livre, até ele.
O oceano é a lágrima dela, vasta, inalcançável.
A montanha vulcânica é o suspiro dele, latente.
Eles habitam o mesmo planeta,
mas em dimensões paralelas de existência.
Noite adentro, quando o mundo dorme pesado,
o Fogo sonha com chuvas torrenciais,
e a Água anseia por uma faísca ousada.
Um sonho persistente,
a ilusão doce e cruel,
de que o destino, um dia, esqueça as regras,
e permita o reencontro,
o momento breve e perfeito
onde o calor encontre a sede,
e o amor deles, finalmente,
não precise mais de separação.
Apenas o toque.
O antigo e lindo amor.