Fios de Tensão e Permanência: As Dinâmicas Transversais da Poesia Brasileira
Ensaios | Miguel JúniorPublicado em 02 de Fevereiro de 2026 ás 22h 02min
Introdução: Para Além da Sucessão de Estilos
A historiografia literária tradicional costuma operar por meio de compartimentos estanques: um movimento cede lugar ao seguinte em uma sucessão ordenada. Contudo, uma análise mais atenta da lírica brasileira revela que essa lógica linear é insuficiente para capturar sua complexidade e vitalidade. A força da nossa poesia não reside apenas em rupturas manifestas, mas em "tendências transversais": linhas de força, preocupações estéticas, temáticas e éticas que atravessam diferentes gerações e períodos, conectando poetas de projetos aparentemente díspares em um diálogo subterrâneo e contínuo.
A tese deste ensaio é que o dinamismo dialético da poesia brasileira se define não por rupturas absolutas, mas por um campo de tensões produtivas e diálogos contínuos entre tradição e invenção, forma e política, o eu e o coletivo. Em vez de uma sucessão de estilos, encontramos um processo dinâmico de reformulações, onde as mesmas questões reaparecem sob novas formas, respondendo aos impasses de cada tempo.
Para demonstrar essa tese, exploraremos os principais eixos de tensão que moldam a identidade poética brasileira — a crise do sujeito, a arquitetura do banal e o diálogo como disputa —, culminando em uma análise comparativa que ilustra como essas dinâmicas se manifestam concretamente, unindo e distinguindo vozes canônicas e contemporâneas.
1. A Crise do Sujeito: Da Máscara Modernista à Performance Pós-Lírica
Uma das mais duradouras e dramáticas linhas de força da poesia brasileira desde o Modernismo é a interrogação do sujeito lírico. A desconfiança estratégica em relação a um "eu" confessional, unitário e autêntico tornou-se um método, um ponto de partida para a experimentação poética. O sujeito deixou de ser visto como uma origem natural da expressão para ser tratado como uma construção linguística, uma máscara ou um campo de tensões.
Essa crise evoluiu em diferentes fases, revelando a persistência da questão:
a) Raízes Modernistas: O colapso do eu romântico já se anunciava em estratégias como as de Oswald de Andrade, que trocava a filosofia pelos "sentidos", e de Manuel Bandeira, para quem a poesia era um mistério onde "o poeta se perde". O eu lírico já não era um centro estável, mas um ponto de partida para a ironia e a dissolução.
b) Objetividade Construtiva: João Cabral de Melo Neto e o Concretismo levaram essa crise a um novo patamar de radicalidade. Cabral substituiu o sentimentalismo pela "engenharia" verbal, buscando uma poesia que "não molhasse a mão". No Concretismo, o sujeito foi deliberadamente substituído pela estrutura visual e sonora do poema-objeto, tornando-se um elemento quase ausente.
c) Reconfiguração Contemporânea: Na poesia pós-lírica, o "eu" retorna, mas de forma reconfigurada. Em poetas como Carlito Azevedo, Angélica Freitas e Tatiana Tolentino, o sujeito é irônico, múltiplo e performativo. Ele não confessa uma verdade interior, mas encena uma persona, usando a primeira pessoa como um dispositivo crítico para questionar sua própria autoridade e os discursos que o atravessam.
Essa crise do sujeito está intrinsecamente ligada à centralidade do corpo. Se a subjetividade se revela uma construção instável e atravessada por discursos, o corpo—fenomenal, pulsante, finito—surge como uma âncora material, um lugar irredutível de experiência. Vemos essa âncora material no erotismo místico de Hilda Hilst, no corpo negro e alvo político de Ricardo Aleixo, no corpo em transição de Cris Oliveira e na corporalidade explorada por Natasha Ribeiro. O corpo torna-se o arquivo e o palco onde as tensões da subjetividade se manifestam.
Assim, a desconstrução do sujeito abre caminho para uma poética que se volta com mais intensidade para a matéria do mundo e para a própria fisicalidade da linguagem; pois, uma vez abalada a autoridade do "eu" psicológico, o poema busca sua legitimidade na concretude do objeto e na fisicalidade da própria palavra.
2. A Arquitetura do Banal: Materialidade, Cotidiano e Hibridismo
Uma tensão produtiva que define a lírica brasileira é aquela entre o rigor formal e a escolha de temas prosaicos. A atenção à materialidade da linguagem não é um mero formalismo, mas uma postura ética: a consciência de que a forma não é um ornamento, mas uma maneira de organizar a experiência e tomar uma posição diante do mundo.
Essa dialética entre forma e tema se manifesta de maneiras diversas e persistentes:
a) A Palavra como Matéria: A consciência de que a palavra é um objeto sonoro, visual e rítmico atravessa a poesia brasileira. Ela se revela na "arquitetura verbal" de João Cabral, no poema-objeto do Concretismo, na poesia sonora de Waly Salomão, que tratava a voz como um instrumento performático, e, mais recentemente, nas experimentações da poesia digital, que incorpora hipertextos e algoritmos. A linguagem nunca é um veículo transparente.
b) A Ética da Atenção ao Pequeno: Esse rigor técnico é frequentemente aplicado para elevar poeticamente o ordinário. O gesto canônico de Drummond, ao transformar uma "pedra no meio do caminho" em um problema existencial, e de Bandeira, ao poetizar um "botequim", são radicalizados por Manoel de Barros, que celebra a "poesia do que não presta". Essa tradição revela uma ética da atenção ao pequeno, encontrando no gesto banal e no objeto mínimo uma forma de resistência ao grandioso.
c) O Prosaico na Era Digital: Poetas contemporâneos como Juliana Leite, Bruna Beber e Nina Rizzi atualizam essa tendência. O cotidiano que poetizam agora inclui a tela do smartphone, o "lixo" informacional das redes sociais e os clichês da cultura pop. A hibridação de mídias, com poemas circulando no Instagram ou em podcasts, demonstra que o banal mudou de suporte, mas a vontade de dar-lhe forma poética permanece intacta.
Essa transversalidade revela uma poética que encontra o sublime no "resto" e o universal no fragmento, unindo em um mesmo gesto ético poetas de projetos estéticos que, à primeira vista, parecem opostos. O diálogo com o "real" manifesto no cotidiano se estende, por sua vez, ao engajamento crítico com a tradição literária e a política.
3. O Diálogo como Disputa: Tradição, Intertextualidade e Engajamento Crítico
A poesia brasileira não se concebe como um arquipélago de vozes isoladas, mas como um denso ecossistema literário onde o diálogo com a tradição é uma forma de pensar a própria literatura como uma rede em constante disputa simbólica. A intertextualidade, aqui, não é reverência passiva, mas apropriação crítica, um modo de digerir e reconfigurar o passado.
Essa prática de apropriação crítica se manifesta em gestos recorrentes:
1 - Manuel Bandeira reescreve Camões com uma ironia suave, deslocando o tom épico para o registro do cotidiano.
2 - Haroldo de Campos não traduz, mas "devora" autores como Goethe, transformando a tradução em um ato de criação.
3 - Angélica Freitas reinterpreta Rilke com humor e erotismo, quebrando a aura sagrada do mestre europeu.
4 - Ricardo Aleixo cita Drummond para expor as fraturas raciais que o cânone modernista frequentemente silenciou.
Essa forma de dialogar com a história literária está diretamente conectada ao engajamento crítico. Na poesia brasileira, o engajamento mais potente raramente é panfletário; ele se manifesta na forma, na ironia e na desestabilização de discursos, recusando a "simplificação ideológica". A política está "embutida na forma", como se vê no testemunho subjetivo e fragmentado de Ferreira Gullar em "Poema sujo", na escrita afrodescendente de Conceição Evaristo, que descentra o cânone sem abrir mão da densidade estética, ou na poesia transfeminista de Cris Oliveira e Lívia Natália, que opera pela desestabilização de categorias.
Na contemporaneidade, o engajamento mais sofisticado é aquele que reconhece a literatura como um campo de disputas. Ele reescreve a história literária para incluir as vozes historicamente silenciadas, transformando o diálogo com a tradição em um ato político fundamental.
4. Estudo de Caso — Da Pedra ao Pixel: Tensão e Continuidade em João Cabral e Angélica Freitas
A comparação entre João Cabral de Melo Neto (1920–1999) e Angélica Freitas (1973–) é um exercício exemplar para observar a continuidade e a reconfiguração das tendências transversais. Ambos compartilham uma aversão radical ao sentimentalismo derramado e uma visão do poema como construção, mas seus caminhos para alcançar essa lucidez crítica são radicalmente distintos, refletindo as transformações do seu tempo.
A análise a seguir explora suas abordagens a partir das três tendências discutidas:
a) A Materialidade da Linguagem: Para Cabral, a palavra é uma "palavra-coisa", um tijolo a ser lapidado. Sua poética é a da economia, da secura, buscando uma linguagem tátil e resistente, livre de adornos. Ele esculpe. Freitas, por outro lado, trabalha com a "palavra-ruído", o ready-made da linguagem gasta da internet, da publicidade e dos clichês sociais. Sua matéria-prima é o excesso, o "lixo" informacional que ela cola e desloca para revelar seu ridículo e sua violência. Ela coleciona e edita.
b) A Interrogação do Sujeito Lírico: O anti-lirismo de Cabral se manifesta em um "sujeito ausente". Ele se esconde atrás da descrição objetiva do mundo — o rio, a faca, o cemitério — para dar vez às coisas. Já o pós-lirismo de Freitas opera através de um "sujeito performativo". O "eu" em seus poemas é teatral, debochado e múltiplo, uma mise-en-scène usada para criticar estereótipos de gênero e quebrar a aura sagrada da poesia.
c) O Engajamento Crítico: A política em Cabral é uma "denúncia estrutural". Em Morte e Vida Severina, a crítica à miséria do Nordeste é feita através da geografia e da forma inspirada no cordel, sem discursos moralizantes. Em Freitas, o engajamento se volta para a "política do corpo e do gênero". Sua crítica ataca as micropolíticas e a misoginia através do humor, da ironia pop e da repetição de frases feitas até que elas exponham seu próprio absurdo.
Em conclusão, Freitas herda a lição de lucidez de Cabral, mas a aplica ao mundo "líquido" e saturado de informações do século XXI. A "pedra" de Cabral foi substituída pelo pixel, mas o rigor crítico persiste: o poema continua sendo um artefato inteligente, lançado no mundo não para resolvê-las, mas para nos fazer enxergar as contradições da realidade com uma lucidez incômoda.
Conclusão: A Poesia como Laboratório de Contradições
As tendências transversais demonstram que a poesia brasileira se define menos por estilos fechados e mais por diálogos e tensões contínuas. Sua identidade reside na capacidade de reformular incessantemente os mesmos problemas, mantendo um equilíbrio dinâmico entre tradição e invenção, intimidade e política, rigor formal e matéria prosaica, o eu e o coletivo, o erudito e o popular. A capacidade de acolher contradições é, talvez, sua marca mais distintiva.
Ao rejeitar a totalidade fechada em favor da "forma aberta" e da fragmentação, a poesia brasileira se assume como uma "ruína viva", um organismo que extrai sua força não de uma totalidade perdida, mas do reconhecimento ético de que o mundo e o sujeito são, por natureza, incompletos. Ela não busca respostas definitivas, mas cria espaços onde as perguntas podem ser vividas com profundidade, ironia e beleza.
Nesse sentido, a reflexão de Manoel de Barros captura a vocação mais profunda dessa tradição poética:
“A poesia está em tudo que não serve para nada.”
É nesse "não servir", nessa resistência à utilidade imediata e à lógica produtivista, que a poesia brasileira encontra sua liberdade soberana e sua necessidade paradoxal.