Festa no Cristo Rei
Conto | Arraiá das letras - Família Literária 2025 | Manoel R. LeitePublicado em 03 de Fevereiro de 2026 ás 09h 44min
Na década de noventa a noite tinha outro tamanho. Em Cuiabá a gente ainda media distância por referência de esquina e de sombra: “passa a padaria e vira depois do orelhão”. E quando o assunto era festa junina, a pressa sempre chegava atrasada — porque o que mandava era o compasso da fé, o cheiro da comida e a alegria que ia se espalhando como brasa em chão de quintal.
Eu fui parar na festa da Paróquia Cristo Rei no grande Cristo Rei por teimosia boa: dessas que a gente chama de convite, mas por dentro sabe que é um chamado. A paróquia já era antiga, dessas que foram crescendo junto com os bairros e com as famílias, plantada ali desde o fim dos anos sessenta. E em volta dela o mundo parecia um grande espaço de bairros, capelas e promessas, em que cada comunidade em harmonia tinha seu santo e cada casa guardava sua fé em ninchos, pequenos altares, quadros e pinturas e principalmente nos corações.
Diziam que o Várzea Grande inteiro cabia no grande Cristo Rei e ainda sobrava gente. Não era exagero, não. O lugar era como uma cidade dentro da cidade, puxando uma porção de bairros e vidas para perto. Muitas vezes ligada mais a Cuiabá do que muitas localidades da própria Várzea Grande. E ali, na baixada, a noite vinha com vento morno, riso fácil e uma música que parecia nascer do pó, do asfalto e das árvores ao mesmo tempo, principalmente das mangueiras e cajueiros de tantos quintais e esparramados pelas ruas.
Cheguei cedo, mas já estava tarde para quem ama festa. As bandeiroras tremiam feito oração colorida, e o pátio da igreja se enchia de barracas como se cada comunidade tivesse aberto um pedaço de coração com madeira, palha e muitas folha de acori. Tinha barraca de pescaria, de argola, de correio elegante — e, claro, comidas e bebidas, que eram simples e encantadoras, verdadeiras tradições de um povo caloroso e alegre.
O som, daqueles de caixa grande e microfone que dá choque se a mão estiver suada, tocava umas músicas que podem até sumir das rádios, mas nunca da memória afetiva de quem sente-se vivo. Em certo momento, como quem puxa conversa com a infância, alguém soltou Pixé, e a letra veio com aquele gosto de tempo bom, de brincadeira antiga, de céu riscado por foguete. Todos se alegraram pela melodia, brincadeiras e a certeza que aquilo era viver, e, naquele instante não se precisava de mais nada, não faltava nada, simplesmente a felicidade já fora alcançada.
— Ô, rapaz, cê veio de onde com essa cara de quem tá procurando barraca e gente? — perguntou um senhor de chapéu de palha, bigode teimoso e olhos de quem já foi menino demais.
— Vim de Cuiabá, mas cheguei com o coração em Várzea Grande faz tempo — respondi, que era verdade do jeito que verdade tem que ser: simples.
Ele deu uma gargalhada que parecia sino e cutucou o ar com o queixo.
— Então tá em casa. Aqui é Cristo Rei. Se ocê procurar amor, acha. Se procurar comida, acha também. Só não procura confusão que ela tem perna curta e volta pro dono.
Antes das quadrilhas. Um rapaz, animado e prestativo, resolveu ajudar a ligar a extensão da barraca do quentão. Ligou. Aí ligou de novo. Aí ligou errado. E o resultado foi que a lâmpada piscou três vezes, a caixa de som deu um suspiro e o microfone soltou um “BÓÓÓ” que fez até santo coçar os ouvidos.
O padre — um homem de voz calma e humor afiado, e um sotaque de padre de origem italiana, pois a maioria dos padres mesmo não nascendo na Itália, parecem que aprendem nos seminários a falar “italinês” — pegou o microfone que ainda estava vivo e disse:
— Meus filhos, isso é o Espírito Santo passando no som… só que hoje ele veio em 220. Vamos com calma, que até milagre precisa de tomada certa.
A gargalhada foi geral, inclusive a minha. E foi nessa hora que eu notei o que sempre me encanta nessas festas de paróquia: a alegria não é deboche, é comunhão. É riso que junta, mesmo em alguns momentos parecendo uma leve tchuchada.
As barracas, cada uma com seu sotaque, espalhavam aromas como se estivessem contando histórias. Tinha canjica e pamonha, tinha curau e bolo de milho, pé-de-moleque e cocada — essas coisas que o Brasil todo reconhece, como se junho tivesse um cardápio oficial. Mas havia também o que era daqui, com orgulho quieto: bolo de arroz, aquele cheiro de casa antiga; e um doce que não precisa gritar para ser lembrado.
— Vai um furrundum? — ofereceu uma senhora, mexendo a panela com a firmeza de quem segura o tempo para ele não derramar.
Furrundum é doce que parece inventado para ensinar paciência. Feito com o pé do mamão era de lamber os beiços. Tinha também doce de mamão, no Cristo Rei aprendesse que diferenças não são ameaças, são complementos, feito com mamão verde, rapadura, cravo, canela… tudo cozinhando até virar cor de lembrança morena. A colher levantava e descia como se rezasse. E quando ela colocou um pouco no meu prato, eu senti que era impossível ficar triste com a boca ocupada por uma doçura tão daqui.
Um adolescente passou correndo com um balão maior que o próprio juízo, desviando de gente, de cadeira, de barraca.
— Menino, cuidado com esse trem! — gritou alguém.
Ele respondeu sem frear:
— Tô treinando pra ser foguete!
E foi bater justo num senhor que carregava bandeja de pastel. Pastel voou, balão chorou, e o senhor, com uma calma que só a fé dá, disse:
— Ô, meu filho… se ocê quer ser foguete, pelo menos aprende a mirar no céu, não no lanche dos outros.
O menino ficou vermelho igual brasa. E o senhor, em vez de brigar, fez o que a festa ensina: dividiu os pastéis que sobraram, como se o acidente tivesse sido desculpa para partilha. E ali eu entendi de novo: o riso é uma forma de cuidado.
A quadrilha começou quando já era noite de verdade. A sanfona puxou, o marcador gritou “olha a chuva!”, e a chuva, respeitosa, não veio. O povo já estava vestido de roça imaginária: camisa xadrez, remendo costurado, fita no cabelo, bigode pintado. E havia uma beleza naquele exagero: era como se cada um dissesse “eu posso ser outro por uma noite e ainda assim ser eu”.
— Ocê veio sozinho? — perguntou uma moça da barraca do correio elegante, segurando um envelope rosa com letras tortas.
— Vim com fome e com saudade. Isso conta como companhia? — respondi.
Ela riu e abriu o envelope, lendo como se fosse anúncio de rádio:
— “Para o moço de camisa clara: seu sorriso é mais quente que fogueira. Assinado: alguém que sabe.” Ô, rapaz, cê tá bem de audiência.
Eu olhei em volta tentando adivinhar “alguém que sabe”, mas era impossível. Festa junina tem dessas: o segredo vira tempero. E a vergonha, quando é leve, vira dança.
Perto do coreto improvisado, um grupo de homens afinava violão e viola. E quando o repertório virou rasqueado, a festa ganhou um segundo coração. Alguém pediu de novo Pixé, e foi como se a década inteira tivesse voltado num sopro: pandoga no céu, brincadeira de menino, “tempo bom que não volta mais”… e, ainda assim, voltando ali, no meio do povo.
Encostei num conhecido antigo, daqueles que a gente reconhece mais pelo riso do que pelo rosto.
— Rapaz, você sumiu! — ele disse, me abraçando com força.
— Eu não sumi, não. Eu só fiquei escondido no trabalho. — E completei: — Mas festa assim puxa a gente pelo colarinho.
Ele apontou para a igreja e falou, com aquela seriedade brincalhona que só a baixada sabe fazer:
— Aqui é o lugar onde até quem tá duro fica rico por umas horas. Rico de gente. Rico de canto. Rico de cheiro.
E eu fiquei pensando nisso enquanto via as comunidades se misturando — gente de capela diferente, de rua diferente, de história diferente — todas formando uma coisa só, como se a paróquia fosse mesmo um grande quintal e cada barraca fosse uma porta de casa.
Antes da queima da fogueira, o padre chamou o povo para um instante de oração. Ninguém fez cara feia. A festa era religiosa, sim, mas não triste. Era uma alegria com coluna. Uma alegria que sabe para onde olha. E quando a oração terminou, o céu pareceu mais alto, e o pátio, mais íntimo.
A fogueira acesa estalou e clareava o local. As crianças deram um passo para trás e depois dois para frente — o medo e a curiosidade brincando de pega-pega. Uma senhora passou distribuindo pedaços pequenos de bolo de arroz e biscoito de polvilho alimentando a noite e a alegrias das crianças.
Eu me peguei sorrindo sozinho. Os anos noventa tinham esse gosto: mistura de simplicidade com festa cheia, de som com violão, viola de cocho, ganzá e muita fé, brincadeira, comida quente, ponche refrescante, cerveja gelada na palha de arroz, licores principalmente de leite para esquentar a goela e muita conversa comprida.
Perto da saída, o senhor do chapéu de palha me encontrou de novo.
— E aí, cuiabano… achou o que veio procurar?
Eu pensei no envelope do correio elegante, na risada do padre, no furrundum, na quadrilha, no rasqueado, nas barracas como pequenas casas.
— Achei. — respondi. — E nem sabia que era isso.
Ele deu um tapinha no meu ombro, satisfeito.
— Então pronto. Festa boa é assim. A gente vem por um motivo e volta com mais uns cinco.
Quando fui embora, eu levei no corpo o cheiro da fumaça e no peito uma coisa mais difícil de explicar. Era pertencimento. Não desses que gritam bandeira, mas desses que se assentam como brasa: discretos, quentes, duradouros.
A festa no Cristo Rei ficou atrás, mas não terminou. Ficou comigo. E eu tive certeza de que certas noites continuam acontecendo dentro da gente, mesmo quando a música baixa e as bandeirolas voltam a ser só papel cortado.
Porque tem festa que é calendário.
E tem festa que é raiz.
E essa… essa era as duas coisas.