Eu sou uma sílaba solta
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 05 de Março de 2026 ás 20h 49min
Eu sou uma sílaba solta
pendurada no ar rarefeito
deste silêncio extenso.
Um murmúrio breve
numa página em branco,
à espera de um som.
Solidão não é ausência,
é espaço esperando preenchimento,
e eu sou a partícula mínima,
o grão de areia
na vastidão da praia da linha.
Nesta solidão dos versos,
onde a tinta seca lentamente,
eu flutuo, insignificante,
mas necessária,
como a vírgula esquecida
que dá o fôlego à frase longa.
Componho a ilusão gentil
de ser parte de algo maior,
uma tessela miúda
no mosaico que se arma,
ainda incompleto,
na tela da minha mente.
Sou a vogal aberta,
o eco de uma porta que não bateu,
o leve tremor da folha
antes que o vento a toque.
Simples, quase nada.
Mas neste nada, reside
a promessa do conjunto,
a expectativa da rima que virá,
o ritmo que ainda não se sabe,
mas que eu ajudo a construir,
com meu ser fragmentado.
A gentileza da ilusão
é vestir o acaso com intenção,
é ser o tijolo solto
que um dia se encaixará perfeitamente
na parede da arquitetura lírica.
Eu não sou o verso completo,
nem a estrofe que se fecha com chave,
sou apenas o pedaço que vibra
na costura invisível,
o respiro contido
entre o pensar e o dizer.
E assim me sustento, sílaba solta,
nesta dança lenta e cuidadosa,
na miragem doce
de que minha existência fugaz
ajuda a tecer
a beleza frágil
deste poema que nasce
da pura vontade de ser.
Um fio tênue,
mas que se entrelaça,
na teia delicada
do que será, talvez,
lindo,
por causa de mim,
por causa do meu estar aqui,
nesta solidão fértil.