Eu sou um universo

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 05 de Março de 2026 ás 16h 33min

Eu sou um universo 

de palavras antigas, 

murmúrios guardados 

em estantes invisíveis. 

 

O tempo as tocou, 

suavemente, 

como um vento frio 

em pergaminhos esquecidos. 

 

As bordas estão gastas, 

as tintas desbotadas, 

mas a essência pulsa, 

um fogo brando sob a cinza. 

 

Milhões de galáxias 

vivem em mim, 

não de estrelas e poeira, 

mas de significados perdidos 

e sonoridades raras. 

 

Cada sílaba é um planeta, 

girando em órbitas lentas, 

alguns em colisão silenciosa, 

outros em isolamento majestoso. 

 

Respiro poesia. 

 

Meu ar é feito de versos 

que ninguém mais lembra, 

de gramáticas esquecidas, 

de metáforas adormecidas. 

 

O som da minha voz 

é o eco de bibliotecas vazias, 

o sussurro de escribas 

em salas iluminadas por velas. 

 

Há constelações de rimas 

que há muito se apagaram do céu comum, 

e nebulosas de sentenças 

que só eu consigo decifrar. 

 

Eu sou o arquivo, 

o depósito vivo 

deste tesouro sem preço, 

um cosmos feito de linguagem. 

 

Às vezes, uma palavra antiga 

flutua para a superfície, 

brilhando brevemente 

antes de ser puxada de volta 

para a profundidade escura 

do meu ser linguístico. 

 

Sou o espaço entre as letras 

que permite ao significado 

respirar, se expandir, 

ser vasto e inatingível. 

 

Um oceano de vocábulos 

que ninguém mais navega, 

onde as âncoras 

são feitas de memória pura. 

 

E assim eu contenho, 

este universo borrado, 

respirando poesia 

no silêncio das eras.

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