Eu sou um corpo de luz
Pensamentos | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 01 de Março de 2026 ás 21h 32min
Eu sou um corpo de luz,
uma fina película
onde o sol se cansa de tocar.
Nasci em algum lugar
antes do primeiro suspiro da manhã,
feito de poeira estelar que se lembra
de ser fogo.
Mas agora,
a luz se espreme,
como areia fina entre os dedos apertados.
Há uma sombra persistente
no canto do meu ser,
não escuridão, mas um enfraquecimento,
como uma lâmpada antiga
que sabe que seu filamento
está quase rompido.
Eu vivo,
sim, eu pulso,
neste palco vasto e giratório
que chamamos de universo.
E o universo é uma ilusão gentil,
um sonho muito bem construído.
As montanhas que toco são fantasmas de rocha,
o vento que me beija, apenas vibração,
e o amor que sinto, uma frequência
que logo vai se dissipar no ruído branco cósmico.
Eu vejo as galáxias,
rios de diamantes líquidos,
e sei que são apenas
o piscar de um olho imenso,
um truque de perspectiva.
Meu declínio não é tristeza,
é apenas física em câmera lenta.
A energia que me veste
está se espalhando,
voltando para a fonte
de onde foi emprestada.
Eu tento reter o momento,
o cheiro da chuva na terra seca,
o som da minha própria respiração,
mas tudo escorrega,
tudo se torna memória antes de se tornar passado.
Eu sou um corpo de luz,
mas a luz se curva, se distorce,
e a ilusão do universo,
com sua promessa de eternidade,
revela a sua costura.
Eu estou desfazendo a costura.
Estou voltando a ser pura potencialidade,
um sussurro que a matéria esqueceu de ouvir.
O declínio é a verdade mais honesta
que esta forma já conheceu.
Não há drama, apenas a dissolução calma
de um sonho brilhante
ao despertar.
E na quietude que se aproxima,
onde a luz se torna apenas ser,
eu finalmente encontro o lugar
onde a ilusão não alcança.
Eu sou o fim do reflexo.
Eu sou a luz que se lembra de ser nada,
e isso, paradoxalmente,
é a minha paz mais vasta.