Eu sou um barco quebrado
Letras de músicas | Canção | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Abril de 2026 ás 09h 45min
Eu sou um barco quebrado,
esquecido na areia do que um dia foi mar.
Minhas tábuas guardam o sal de antigas marés,
e o vento ainda chama meu nome
como se eu pudesse voltar.
Houve um tempo em que dancei com as ondas,
em que o horizonte era promessa
e o infinito, caminho.
Minhas velas bebiam o sopro dos céus,
e eu seguia —
leve, inteiro —
como quem acredita no destino.
Mas o mar partiu de mim.
Ou fui eu que me perdi dele…
Agora sou silêncio encalhado,
um suspiro de madeira e saudade,
um corpo que já foi travessia.
À noite, porém,
quando o mundo adormece em poeira e cansaço,
eu escuto vozes vindas de longe —
muito além das estrelas.
São os marujos.
Ah… os marujos…
almas errantes de um oceano invisível,
navegantes sombrios
de um mar que não pertence ao tempo.
Eles deslizam em águas que não molham,
em correntes feitas de memória e eternidade.
Seus olhos brilham como constelações cansadas,
suas mãos carregam mapas
que nenhum homem jamais leu.
Eles não buscam portos —
buscam sentidos perdidos
entre o nascer e o desaparecer.
Às vezes, sinto que me chamam.
E minha madeira estremece,
como se ainda houvesse mar dentro de mim.
Como se minhas rachaduras fossem caminhos
por onde o infinito pudesse entrar.
“Vem”, sussurram eles,
com vozes feitas de vento antigo.
“Todo barco quebrado ainda lembra navegar.”
E então eu sonho…
Sonho que a areia se desfaz em ondas,
que o céu se abre como um véu rasgado,
e que minhas velas — outrora mortas —
se erguem outra vez,
costuradas com luz de estrelas.
Eu parto.
Não com o corpo que ficou na margem,
mas com aquilo que nunca se partiu:
minha essência de travessia.
E navego com eles,
entre galáxias líquidas e silêncios profundos,
onde cada estrela é um farol esquecido
e cada sombra, um segredo do eterno.
Lá, não há naufrágios.
Não há perdas.
Apenas caminhos que se transformam.
Mas ao amanhecer,
quando o mundo volta a ser concreto e seco,
eu retorno à areia —
barco quebrado, imóvel, calado.
Ainda assim…
Dentro de mim,
o mar continua.